domingo, 12 de dezembro de 2010

É o fim do começo ou é o começo do fim?

“O novo, o novo sempre vem.”
Belchior, poeta e músico brasileiro.

Infelizmente, neste início do século XXI, ainda investimos muita energia e talento discutindo questões políticas dos séculos XVIII e XIX como se fossem atuais, especialmente nos meios acadêmicos voltados às ciências sociais e às humanidades. Com mais de dois séculos decorridos da Revolução Francesa e da Revolução Industrial e apesar de muitas de suas causas e conseqüências positivas e negativas terem sido muito bem delimitadas, estudadas e conhecidas, parecemos ainda amarrados ás velhas questões e aos velhos dilemas: República ou monarquia? Totalitarismo/autoritarismo ou democracia? Liberalismo ou comunismo? Economia de mercado ou centralização dos meios de produção nas mãos de estados onipresentes e onipotentes? Estado máximo centralizador ou Estado mínimo liberal?
Não quero dizer, com isso, que os alunos das ciências sociais em especial, ou os das ciências humanas em geral, não devam estudar os pensadores clássicos ou a história. É importante saber como chegamos até aqui e como os grandes pensadores do passado interpretaram o seu tempo e projetaram o futuro, ou como e porque os agentes que “construíram” a história agiram dessa ou daquela forma, ou ainda como as diversas sociedades do passado foram atingidas e reagiram aos eventos que mudaram os rumos da humanidade. Minha reflexão parte do princípio hegeliano de que devemos conhecer a história e o pensamento dos homens que melhor a interpretaram, não para repeti-la, mas para entender o presente e participar, dentro de nossas respectivas áreas de atuação ou influência, da construção do futuro, de forma realista, responsável e consciente.
Realista no sentido de interpretar as coisas e os acontecimentos sem paixões, consciente no sentido de saber que nossas escolhas individuais podem negar ou confirmar as “escolhas coletivas”, e responsável, no sentido de conhecer as conseqüências dessas ações ou escolhas. Quando perdemos a capacidade de fazer escolhas estamos perdendo nossa liberdade e nossa vitalidade (Hayek, 1994).
Depois de duas guerras mundiais (e da guerra fria), que praticamente destruíram e dividiram a Europa no século passado e instituiu o medo do apocalipse, houve na segunda metade do século XX o surgimento de uma terceira via do pensamento político e econômico, que em tese juntava os pontos positivos (e eliminava ou minimizava os pontos falhos), das duas correntes clássicas que sempre estiveram em conflito desde o início da modernidade: democracia política com liberalismo econômico versus socialismo ou comunismo com o estado controlando a economia e a sociedade.
Nasceu então a chamada social-democracia, como uma fórmula que resolveria, finalmente, todos os problemas das sociedades modernas na medida em que se conseguisse atingir o desenvolvimento econômico, associado ao estado de bem-estar social para a maioria.
Vários líderes dos mais importantes países ocidentais se engajaram nesta corrente de pensamento no final do século passado, Bill Clinton nos Estados Unidos, Tony Blair na Inglaterra, Romano Prodi na Itália, Lionel Jospin na França, Jean Chrétien no Canadá, Gerard Schoröder na Alemanha, Carlos Menen na Argentina, Carlos Salinas e Ernesto Zedillo no México, Fernando Henrique Cardoso no Brasil e até mesmo Boris Ieltsin na Rússia (Giddens, 1991).
Se na teoria o problema se encaminhava para uma solução, na prática, várias crises políticas e econômicas atingiram o mundo na passagem para os anos 2000, revelando que alguma coisa não saíra como o esperado. Seja por falha do sistema ou dos operadores (Giddens, 2001). O surgimento de inúmeros conflitos localizados ou regionalizados ao redor do planeta, bem como a quebra da bolsa de Hong Kong em 1997 e suas conseqüências para o mercado financeiro e para a economia dos principais países globalizados, mostraram que a solução do problema passava por questões muito mais profundas, complexas e abrangentes do que simplesmente unificar os conceitos de crescimento econômico, baseados nas leis de mercado, com a garantia simbólica de um estado de bem-estar social. Como se refere Giddens (1991), ás relações globalizantes - o local e o global.
Para manter sua soberania mundial e o elevado grau de individualismo e de consumo de seu povo (Giddens, 1991), os Estados Unidos continuaram praticando no pós-guerra sua política intervencionista e militarista ao redor do mundo. Essa política, que praticamente destruiu o estado iraquiano com a guerra deflagrada em 1990, que culminou com a invasão daquele país pelos americanos e seus aliados em 2003, controla militarmente o frágil estado afegão desde 2001, tem alimentado uma instabilidade crescente no oriente médio e o ódio de muitos de seus cidadãos ao povo e ao Estado norte americano. O atentado de 11 de setembro de 2001 é conseqüência desse ódio. O imperialismo não poupou os Estados Unidos (em julho/agosto de 2008) de mergulharem em uma das maiores crises imobiliárias, financeiras e econômicas de sua existência, com conseqüências que se arrastam até hoje.
Os estados europeus ocidentais buscaram no final do século passado se unificar e se fortalecer política e economicamente, não só com relação aos Estados Unidos, mas também com relação à China, à África, à América Latina e também à Europa Comunista, na tentativa vã de proteger sua economia, seu desenvolvimento social, seu mercado interno e seus empregos. A efetivação de tantos direitos sociais conquistados depois da segunda guerra mundial, sem lastro econômico, acabou provocando o endividamento público da maioria dos países pertencentes ao mercado comum europeu. As convulsões sociais que têm ocorrido atualmente na Grécia, na França e na Espanha parecem ser apenas a ponta de um grande iceberg. É a perda de controle dos resultados ou as conseqüências indesejadas a que Ulrick Beck (1997), se refere ao tratar dos riscos derivados de uma dinâmica altamente tecnológica.
A Europa oriental, capitaneada pela Rússia, que emergiu da segunda guerra mundial como uma das grandes potências vencedoras do conflito, mergulhou numa experiência comunista (ou para alguns: socialista) desastrosa. A URSS foi construída em 1922 e mantida até 1989, á custa de várias dezenas de milhões de mortos em vão. A esta tentativa de construção de um estado leninista-trotskista-stalinista-marxista, foram anexados uma série de países onde democracia, liberdade e direitos humanos simplesmente não existiam. As intermináveis crises de produção e de distribuição de itens básicos para a sobrevivência humana nesses países comunistas do leste europeu, só ficaram menos evidentes do que a generalizada corrupção que tomou conta das burocracias dos estados que o compunham.
Enquanto na África ocorreu e ocorre um processo de esfacelamento de inúmeros países recém descolonizados em função de conflitos étnicos, da miséria, do atraso econômico, da inexistência de estados constitucionais, partidos minimamente consolidados e do mínimo de democracia e de respeito aos direitos humanos. Na América Central e do Sul, ronda-nos ainda o “espectro do comunismo”, baseado em líderes populistas e demagógicos como Hugo Chaves na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e de Rafael Correia no Equador. Inspirados numa retórica requentada do bolivarianismo e no exemplo cubano de bem-estar social do moribundo Fidel Castro. Esses “líderes carismáticos” latino-americanos têm conseguido, com muito sucesso, tão somente socializar o atraso e a miséria em seus respectivos países. Enquanto desperdiçam seu tempo e os preciosos recursos de seus povos na construção de inimigos externos e internos (Schmitt, 1992), sem questionar as suas próprias deficiências e limitações.
Neste contexto, surge a China comunista como um componente especial. Saída de sua era medieval a pouco mais de 50 anos, se apresenta ao mundo como um mercado consumidor de 1,35 bilhões de cidadãos sedentos por produtos de primeira necessidade com baixo valor agregado; enquanto se impõe com uma política comercial externa extremamente agressiva, despejando no mercado mundial bens semiduráveis de baixa qualidade com preços muito competitivos. Os preços baixos dos produtos chineses estão diretamente relacionados a vários fatores: a desvalorização artificial de sua moeda, a sua mão-de-obra baratíssima e farta (principalmente porque não respeita ou simplesmente não possui direitos trabalhistas), a exploração de recursos naturais sem nenhum respeito aos impactos ambientais, a prática de uma política fiscal mínima e porque possui boa parte de sua produção baseada na pirataria e de sua rede de distribuição ligada ao contrabando e ao crime organizado.
Isso criou um paradoxo impensável: um país comunista, politicamente fechado, sem democracia, liberdade ou direitos humanos, cresce há vários anos a uma média superior a 9%, executando uma política comercial capitalista, enquanto países capitalistas, tentando praticar uma política de crescimento econômico e social e ambientalmente sustentáveis (como é o caso de alguns países europeus), enfrentam graves crises econômicas.
Depois da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, o capitalismo industrial e os processos de produção praticados pelos países comunistas, além das muitas crises econômicas, políticas e sociais, que levaram a humanidade ás duas guerras mundiais e á guerra fria no século XX, produziram uma imensa devastação nos recursos naturais do planeta, destruíram florestas, extinguiram espécies, poluíram terras, rios, mares e ares. Na sociedade moderna a destruição da natureza não foi encarada como um risco, mas sim como um sinal de progresso (Foucalt, 1979).
Segundo o Dr. Luis Valdés, diretor do Centro Oceanográfico de Gijón, na Espanha, o aquecimento global está aumentando consideravelmente os níveis dos oceanos e esse fato está produzindo um novo fenômeno social: os refugiados climáticos. É o caso de Bangladesh, que com sua elevada densidade populacional e pouca altitude, o aumento do nível do mar obrigará 20 milhões de pessoas a emigrar nos próximos 50 anos para regiões e países mais elevados.
Esse descaso com a natureza e suas conseqüências (ainda pouco estudadas e avaliadas) aparece como um novo subproduto da forma com que nós, seres humanos racionais, estamos lidando com nós mesmos e com o planeta que nos abriga.
Na esteira deste processo de crescimento econômico da era industrial, apareceu então um problema novo: o planeta Terra não pode mais ser visto nem tratado como uma fonte inesgotável de matérias primas e/ou como uma enorme lata de lixo. As questões ambientais agora estão presentes nas pautas de todas as reuniões de cúpula do planeta, seja do G7, do G8, do G20 ou da ONU.
Se o iluminismo e o racionalismo dos séculos XVII/XVIII/XIX foram aspectos fundamentais tanto para a eclosão da Revolução Industrial inglesa, quanto para o advento da Revolução Política Francesa (com a invenção do telescópio, do microscópio, das primeiras máquinas a vapor ou com o surgimento da imprensa – que multiplicou e difundiu a informação para fora dos círculos dominados pela igreja, iniciando o processo de desdivinização/racionalização do mundo), a revolução tecnológica que vivenciamos e a Internet estão cumprindo um papel muito parecido atualmente. Guardadas as devidas proporções e peculiaridades.
”A transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento é o mais importante vetor das transformações sociais das últimas décadas. Essa transformação tem gerado importantes conseqüências nas teorias econômicas e sociológicas, mas é pouco enfatizada na teoria das relações internacionais”. (Viola e Leis, 2007)
A comunicação por satélites, a revolução da informática, a nanotecnologia, a decodificação da estrutura do DNA, a transgenia, a extração de petróleo em águas profundas, a robótica, as sondas espaciais, são apenas algumas das aplicações do alto conhecimento técno-científico atual, que não estão sendo devidamente acompanhadas ou controladas por estados constituídos nos moldes dos três séculos passados, por serem lentos, burocráticos, pesados, retrógrados.
Depois da internet, que é um fenômeno extraordinário dos nossos tempos (na medida em que linhas telefônicas convencionais ou via satélite podem ser acessadas em qualquer lugar do mundo e do baixo custo dos computadores pessoais, está ocorrendo a popularização deste meio anárquico de construções de redes de comunicações e de interação), não existem mais fronteiras físicas ou barreiras ideológicas, o mundo não é mais o mesmo.
Os atuais chefes de estado dos principais países do mundo estão sentindo a cada dia que passa o esvaziamento de seus poderes, diante da sua impotência tanto para dar respostas satisfatórias às velhas demandas, quanto para acompanhar os avanços desse capitalismo tecnológico.
Para tratar dos velhos e dos novos problemas, das antigas e das atuais demandas e acompanhar o rápido processo evolutivo ou de mudança da sociedade atual, inclusive e especialmente o vertiginoso crescimento populacional acompanhado da exponencial concentração humana nos grandes centros urbanos, é necessário não só a renovação das classes políticas atuais, mas também a renovação da retrógrada mentalidade política, que deverá estar voltada para construir um mundo globalizado e efetivamente integrado política, militar, econômica, tecnológica, social e ambientalmente. Do contrário continuaremos a ver nos noticiários os sucessivos fracassos dos encontros dos velhos lideres para rediscutir as velhas questões, sem sequer entender as transformações do mundo atual. Neste nebuloso e desregrado contexto internacional, deve prevalecer o papel do político e da ação política (Schmitt, 1992), tanto na consolidação dos pontos convergentes quanto no equilíbrio necessário e possível nas questões onde não existe acordo.
Se os conflitos tribais e étnicos na África, bem como a miséria e a falta de perspectivas daqueles povos não forem resolvidos, de nada adiantará à Europa construir muros para conter a imigração daqueles que nasceram em suas antigas colônias e nelas não encontram como sobreviver.
O mesmo processo ocorre com os Estados Unidos em relação ao México: se a situação de miserabilidade e a falta de oportunidades para os jovens mexicanos não for resolvida, nada se poderá fazer para conter a emigração em massa dos mexicanos em busca do “sonho americano”.
Não há problema ambiental ocorrido na China, na Sibéria ou no golfo do México que não afete todo o planeta e todos os seres vivos, assim como o desenvolvimento tecnológico está em todos os lugares, vai para todos os lugares sem o menor constrangimento.
Foi muito importante o trabalho realizado por Karl Marx, que, como homem de seu tempo, fez brilhantes diagnósticos dos males que afetavam a Europa do século XIX e das perspectivas que se avizinhavam, porém, suas propostas para corrigi-los não foram tão felizes, e a prática de sua teoria e de seus pensamentos produziu os resultados já mencionados. Em seu ideário de uma sociedade perfeita, o comunismo, Marx igualou os desiguais e desconsiderou as individualidades e o indivíduo (apesar da opinião daqueles que consideram que as idéias de Marx nunca foram colocadas literalmente em prática, por isso o verdadeiro comunismo ainda não foi experimentado e, portanto, não pode e nem deve ser criticado).
Por outro lado as correntes teóricas, filosóficas, políticas e econômicas que predominaram no período do capitalismo industrial (o Liberalismo, o Utilitarismo e o Elitismo), na mesma medida em que foram capazes de produzir grandes volumes de riqueza, não tiveram o mesmo interesse ou a mesma competência em distribuí-la com justiça. De qualquer forma, a retórica da democracia, da liberdade e da possibilidade de ascensão social e econômica, que foram mais convincentes do que as idéias de comunismo, do socialismo ou do anarquismo, acabaram por produzir graves problemas sociais e ambientais e precisa ser reavaliada urgentemente
Para os dias hoje e quiçá para o futuro que estamos construindo, a máxima: “Pensar globalmente e agir localmente” me parece muito atual.
Enquanto os líderes dos principais estados nações tratarem as questões globais delimitando-as setorialmente, geograficamente ou tematicamente, sem considerar que tudo está interligado com tudo e afeta a todos, mesmo que de forma ou em tempos diferentes, os fracassos nas reuniões dos G7, G8, G20, COP15, COP16 ou mesmo da ONU se repetirão.
Diante do exposto, defendo a constituição de um Contrato Social Mundial e da transformação da ONU num Parlamento Global, formado por diplomatas de todos os países, com poder efetivo de voz, voto e veto, onde os valores da Democracia e do respeito absoluto á liberdade e aos direitos da pessoa humana e a sustentabilidade social e ambiental, sejam o seu ponto de partida. Avançando um pouco mais o conceito de Sartori (1994), da construção de um Direito Internacional.
O futuro precisa ser construído, não com as idéias ou com os ideais do passado, mas com o aprendizado que a implantação dessas idéias produziu, considerando as circunstâncias atuais e a projeção da sociedade e do planeta que desejamos para nossos filhos e netos.


Referências:
ARENDT, Hannah. (2000), As origens do totalitarismo. São Paulo, Cia das letras.
ARENDT, Hannah. (1972), Entre o passado e o futuro. São Paulo, Perspectiva.
ARENDT, Hannah. (2001), A condição humana. Rio de Janeiro, Forense.
BECK, Ulrich. (1997), A reinvenção da política. São Paulo, Editora Unesp.
BOBBIO, Norberto. (1985), El futuro de La democracia. Barcelona, Plaza & Janes.
FOUCAULT, Michel.(1979), A microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal.
FUKUYAMA, Francis. (2000), A grande ruptura. Rio de janeiro, Rocco.
HAYEK, Friederick. (1994), O caminho da servidão. Rio de Janeiro, Editora do exército.
GIDDENS, Anthony. (1991), As conseqüências da modernidade. São Paulo, Editora Unesp.
GIDDENS, Anthony. (2001), A terceira via e seus críticos. Rio de Janeiro, Record.
HELD, David. (1997). La democracia y el orden global. Barcelona, Paidós.
SARTORI, Giovanni. (1994). A teoria da democracia revisada (vol. 1). São Paulo, Ática.
SCHMITT, Carll. (1992), O conceito da política. Petrópolis, Vozes.
VIOLA, Eduardo e LEIS, Héctor Ricardo. (2007), Sistema internacional com hegemonia das democracias de mercado: desafios de Brasil e Argentina. Florianópolis, Insular.


José Antonio Martins Prestes

terça-feira, 30 de novembro de 2010

E o Rio de Janeiro, continua lindo?

Segunda-feira, 29 de novembro de 2010.

Os veículos de comunicação de massa brasileiros estão cobrindo. praticamente em tempo real, os atuais acontecimentos na Cidade do Rio de Janeiro. Trata-se dos confrontos entre um conjunto de forças policiais do Estado do Rio e das três Forças Armadas brasileiras contra membros de diversas facções criminosas que controlam o crime organizado na Cidade, especialmente o tráfico de drogas, baseados nos vários complexos de favelas até então totalmente controladas por essas facções.

É um incrível show de imagens (ao vivo) de tiroteios, incêndios em veículos e sobrevôos de helicópteros, intercaladas por entrevistas dos principais comandantes das forças em ação, de políticos justificando as medidas adotadas e de inúmeros especialistas, cada qual com suas leituras, explicações e projeções. Parece haver um inédito e absoluto consenso entre todos de que o que está sendo feito, não só é inadiável e correto, mas é a única forma do Estado se fazer efetivamente presente nesses territórios, qual seja: matando, prendendo ou expulsando os traficantes neles instalados e tomando posse definitiva da área.
A população da cidade do Rio como um todo, mas especialmente as das comunidades carentes recém-ocupadas pelas forças legais, ao mesmo tempo que aplaudem (timidamente) os agentes públicos, demonstram sentir uma estranha sensação de alívio e de incerteza. Alívio por não estarem mais subjugados aos criminosos e incerteza sobre a capacidade que o Estado terá de se fazer presente nessas comunidades e garantir-lhes o mínimo de segurança e de tranquilidade quando os holofotes desse grande espetáculo midiático se apagarem.
Os Brasileiros de todos os outros estados também estão apreensivos e se perguntando: O que acontecerá agora? As instituições públicas conseguirão se estabelecer nas favelas ocupadas e dar conta da demanda social emergente? haverá uma migração dos traficantes da cidade e do estado do Rio de Janeiro para os outros estados?
O meu objetivo neste trabalho não é o de responder essas questões, deixo-as aos especialistas em foco ou aos videntes de plantão, minha pretensão é a de fazer uma análise causal do fenômeno com base nos conceitos de Campo, Hábitus e Capital, de Pierre Bourdieu.
O campo em questão é o da segurança pública, cujo principal agente é o Estado, seja na instância municipal, estadual ou federal, pois é o Estado que tem a atribuição constitucional de garantir a segurança e a integridade dos cidadãos em relação à violência e à criminalidade e a legitimidade do uso da força necessária para as ações de combate ao crime e para o cumprimento da lei.
Gostaria de dividir a agência do Estado em dois blocos: o das instituições que têm por função as ações de prevenção ao crime e à violência, possibilitando a todos o acesso à cidadania, sejam elas as responsáveis pela educação, pelos programas de integração ou de reintegração social, pelas campanhas educativas, etc, e o das instituições que têm por função o combate ao crime e à violência, neste caso, refiro-me às instutuições policiais ou as instituições a elas diretamente relacionadas.
Tanto no aspecto da prevenção quanto no da repressão ao crime e à violência, podemos constatar através de indicadores sociais ou perceber no nosso dia-a-dia a incapacidade dos aparelhos do Estado e dos agentes públicos em cumprir suas funções. O Brasil, que figura como a oitava economia do planeta é também o oitavo país mais injusto desse ranking da ONU. No quesito educação, segundo dados recentes da Pnad (pesquisa nacional por amostra de domicilio), o país só conseguirá atingir o índice educacional previsto na Constituição de 1988 (oito anos de escolaridade média para todos os brasileiros), em 2015. Quanto à violência, várias instituições nacionais e internacionais (como a human high watch) apontam o Brasil como um dos países mais violentos do mundo, ao lado a Colômbia, da Rússia, do México e da Venezuela. Segundo a ONG Trasnparência Internacional, o Brasil ocupa o 59º lugar no ranking de corrupção no planeta (numa lista de menos corrupção para mais corrupção).
Muitos dos agentes das forças policiais que têm atuado durante vários anos no combate ao crime organizado no Rio de Janeiro corromperam-se ou foram corrompidos pelos criminosos, chegando ao ponto dos próprios policiais estruturarem milícias para controlar diretamente negócios ilegais nas favelas e/ou vender segurança aos comerciantes e moradores dessas comunidades. Essa corrupção policial, mostrada claramente nos filmes: Cidade de Deus, Tropa de Elite I e Tropa de Elite II, vem ao longo dos últimos anos, minando a confiança da sociedade nas instituições policiais.
Os principais veículos da mídia nacional, deliciando-se com os altos índices de audiência provocados pela intervenção policial e militar nas favelas, tem limitado suas abordagens sobre o assunto a uma luta do bem contra o mal. Como nas telenovelas e nos filmes vespertinos, no último capítulo ou na última cena, o mocinho vence o bandido e salva a pobre vítima, por vezes, sua grande amada.
A repercussão sistemática pela imprensa de frases como a proferida por Sérgio Cabral, Governador do Estado do Rio de Janeiro: “...essa retomada já se deu em várias comunidades e vai continuar...”, passa a ideia de isenção do Estado brasileiro com relação ao abandono histórico dessas comunidades.
Os membros das facções criminosas incrustadas nessas comunidades carentes, via de regra são frutos dessas próprias comunidades. Em sua grande maioria são jovens negros ou pardos, de famílias muito pobres (muitas delas desestruturadas) e com baixa escolaridade, acostumados com uma rotina banalizada de violência doméstica, social, policial e criminosa.Neste contexto, uma parcela importante desses jovens são facilmente cooptados pelas organizações criminosas. Ou seja, o pouquíssimo preparo pessoal desses jovens para enfrentar o mercado formal de trabalho, associado aos baixos salários oferecidos, às exigências e a competitividade, praticamente os empurra para a informalidade, muitos não resistem aos encantos da vida do crime e sucumbem.
Nossa sociedade tem se mostrado demasiadamente tolerante com essas questões,nas escolhas para os cargos públicos eletivos, não é rara a eleição de políticos sabidamente corruptos, inclusive ligados a organizações criminosas, muitos deles respondendo a vários processos na justiça ou já condenados em segunda instância. É o caso do ex-governador do Rio de Janeiro, Antony Garotinho, que mesmo condenado a dois anos e meio de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, foi o candidato a deputado federal mais votado do Estado do Rio de Janeiro nas últimas eleições, com quase 700 mil votos. Com o advento da lei da ficha suja, sua diplomação e posse estão sob júdice.
A grande maioria dos brasileiros não se sente constrangida, por exemplo, em comprar ou vender produtos oriundos de contrabando ou “piratas”, em sonegar impostos ou ainda em pagar por alguma facilidade oferecida por funcionários públicos. Mas o centro da questão aqui é o crime organizado relacionado ao tráfico de drogas. Neste ponto é preciso lembrar que só existe o tráfico e ele movimenta quantias absurdas de dinheiro porque existem os consumidores dessas drogas, sustentando todo esse esquema criminoso. Ora, os consumidores de drogas estão em todas as classes sociais: são engenheiros, músicos, pedreiros, políticos, jornalistas, advogados, policiais, juízes, padres, jogadores de futebol, donas de casa, estudantes, professores, etc.
O conceito de Habitus de Bourdieu é facilmente observado no campo da segurança publica, especialmente no que diz respeito ao tráfico de drogas. Em função do longo tempo em que essas estruturas foram se consolidando e em que essas práticas foram sendo incorporadas pela sociedade, as novas gerações “naturalizam” facilmente essas “leis sociais”.
Da mesma forma o conceito de Capital. Os agentes, ao longo dos anos em que o tráfico de drogas se estruturou no Rio de Janeiro desenvolveram seus respectivos capitais culturais, econômicos, políticos e simbólicos, no sentido de mantê-lo, porque isso era conveniente a cada um deles. O que está ocorrendo neste momento é uma situação incomoda na qual o equilíbrio necessário foi quebrado e precisa ser reestabelecido.
Comparo a situação caótica da Cidade do Rio de Janeiro, vivenciada nos últimos dias a uma árvore, a qual normalmente vemos e discutimos as folhas, os galhos e até o tronco, mas dificilmente conseguimos ver ou discutir as raízes, embora saibamos que elas existem e que são elas (estruturas invisíveis) que sustentam todo o resto.
José Antonio Martins Prestes

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Educação pra reproduzir ou para revolucionar?

Brasil só cumprirá escolaridade exigida pela Constituição em 2015, diz Ipea
Se mantido o ritmo dos últimos 17 anos, o país só cumprirá a escolaridade de oito anos, exigida pela Constituição, em 2015. Essa é uma das conclusões de estudo divulgado, nesta quinta (18), pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) com base nos dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).
Em 2009, a média de anos de estudos para a população de 15 anos ou mais era de 7,5 anos. Em 1992, o índice era 5,2. Foram necessários 17 anos para ampliar em 2,3 anos a média de anos de estudo da população. "Considerando-se essa taxa anual de crescimento, faltam, ainda, cerca de cinco anos para se atingir, em média, a escolaridade originalmente prevista na Constituição Federal, (ensino fundamental ou 8 anos de estudo)", diz o Comunicado nº 66 do Ipea.
Uma das explicações para o país estar nessa situação se deve "à elevada proporção de analfabetos entre adultos e idosos e à baixa escolarização desses cortes". O analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais é um dos grandes problemas da educação. Segundo o Ipea, a taxa brasileira é alta, mesmo quando comparada com países da América do Sul, como Equador, Chile e Argentina. A taxa de analfabetismo, ou seja, a proporção de analfabetos na população, tem caído constantemente. No entanto, o número total de analfabetos tem se mantido em torno de 14 milhões de pessoas. É considerado analfabeto o indivíduo que não consegue ler e escrever um bilhete simples.
Desigualdades
A média atual de anos de estudo, que em termos absolutos está abaixo do que prevê a legislação, ganha outros contornos quando se leva em consideração caracaterísticas como a distribuição geográfica, a renda e o quesito cor/raça.
Na categoria localização, a população urbana/metropolitana tem, na média, 3,9 anos de estudo a mais que a população rural, atingindo 8,7 anos de estudo. Quem mora na área rural tem, em média, 4,8 anos de estudo. Quando se trata do quesito cor/raça, observa-se que os negros têm menos 1,7 ano de estudo, em média, que os brancos. Os brancos estão com média de 8,4 anos enquanto os negros possuem 6,7 anos de escolaridade. Em 1992, a diferença era maior -- de 2,1 anos.
Chama a atenção a diferença entre as faixas de renda. "Independentemente da categoria selecionada, os mais ricos sempre estão em melhor situação do que os mais pobres", diz o estudo. Há uma diferença de 5,2 anos de escolaridade entre os mais ricos e os mais pobres.

Matéria do UOL Notícias de 18/11/10

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Doação ou investimento?

Governadores eleitos no 1º turno receberam R$ 120 milhões em doações 'ocultas'

Apesar de serem obrigados a prestar contas de suas receitas, os 18 governadores eleitos no primeiro turno arrecadaram cerca de 38% de suas doações de forma "oculta", ou seja, via partidos ou comitês financeiros, o que torna impossível identificar a origem do dinheiro.

O montante representa R$ 120 milhões, de um total de R$ 318 milhões arrecadados pelos governadores.

O valor doado a partidos e comitês é repassado para outros comitês e, por fim, aos candidatos, num caminho que chega a envolver até quatro intermediários.

A manobra, que é legal, permite que empresas doem a candidatos sem ter o nome associado diretamente a eles.

O campeão de doações ocultas entre os governadores eleitos é Siqueira Campos (PSDB-TO), com 98% de doações via partidos ou comitês. Em seguida, aparecem Raimundo Colombo (DEM-SC), com 92%, e Roseana Sarney (PMDB-MA), com 87%.

A partir das prestações de contas dos partidos e comitês financeiros, a Folha conseguiu identificar os maiores doadores aos partidos e a quem os partidos repassaram o dinheiro.

O governador reeleito de Minas, Antonio Anastasia (PSDB), por exemplo, não recebeu nenhum centavo da Queiroz Galvão, mas a empreiteira doou R$ 500 mil ao diretório mineiro do PPS, que, por sua vez, repassou R$ 60 mil ao tucano.

No total, Anastasia recebeu doações de dez partidos e comitês, que representam 47% dos recursos.

Em Santa Catarina, a declaração de Raimundo Colombo informa que só quatro empresas foram suas doadoras, com R$ 250 mil. É só nas contas do comitê, que financiou 90% de sua campanha, que se vê que a maior doadora, indiretamente, foi a Camargo Correa (R$ 1 milhão).

A campanha de Eduardo Campos (PSB-PE), que custou R$ 13,8 milhões, foi financiada principalmente pelo diretório nacional, que bancou 61% do total.

Seu principal financiador, por sua vez, foi o grupo Queiroz Galvão, que doou R$ 6,5 milhões ao PSB Nacional, mas não aparece na prestação de contas de Campos.

Rosalba Ciarlini (DEM), do Rio Grande do Norte, recebeu 65% do total arrecadado por vias ocultas. A maioria veio do comitê financeiro de seu partido, cujo maior doador é a construtora EIT.

A empresa não aparece nas doações de Rosalba, mas doou R$ 1,1 milhão ao comitê do DEM no Estado --que, por sua vez, doou mais da metade do que arrecadou à candidata. (ELIDA OLIVEIRA, ESTELITA HASS, LUIZA BANDEIRA, RODRIGO VIZEU E SÍLVIA FREIRE)


Matéria do site UOL notícias de 15/11/2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A paz!!!!

Gilberto Gil

A paz
Invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

A paz
Fez o mar da revolução
Invadir meu destino; a paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz

Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz

Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O discurso da vitória de Dilma Rousseff 31/10/10

Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui.

Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida.

Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.

Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões.

O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família.

É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte.

A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro.

Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.

Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos.

Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público.

Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo.

Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.

As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.

Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.

Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas.

Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde.
Me comprometi também com a melhoria da segurança pública.

Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos.

Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade.

É aquela que convive com o meio ambiente sem agredi-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa.

Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.

Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho.

Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.

Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.

Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós.

Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta.

Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado.

Saberei consolidar e avançar sua obra.

Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo.

Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união.

União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.

Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.

Muito obrigada,

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Dilma ou Serra?

Para uma jovem democracia como a a brasileira, o processo eleitoral que termina no domingo próximo, dia 31 de outubro é, por si só, uma grande vitória. Não tivemos, á princípio, nenhum sobressalto na economia, que parece, finalmente, ter vida própria. Também no aspecto social, tudo permaneceu sem nenhuma turbulência maior.
É verdade que não existe muita diferença ideológica entre os dois candidatos que ficaram para o segundo turno e suas plataformas e programas, são muito mais parecidos que diferentes. Isso certamente ajudou a manter a estabilidade durante o processo.
Mas afinal o que há de diferente entre Dilma Roussef e José Serra?
Dilma Roussef, importada do PDT, é uma aposta pessoal do presidente Lula, portanto está dentro de um projeto de poder idealizado por ele e por um pequeno grupo de amigos (inclusive a própria Dilma) que tem duração bem maior do que os oito anos em que ele permanece no poder, que pretende levar o Brasil ao topo do ranquing das potências mundiais nos próximos 10 ou 15 anos. Eles sabem que o Brasil tem muitos requisitos para estar entre a 4ª ou 5ª nação mais rica do planeta até 2025 e querem ser os condutores deste processo e assim entrar para a história.
O que Lula, Dilma e companhia limitada também sabem é que esse crescimento econômico precisa ser suportado por um desenvolvimento social. A conclusão é simples: não é possível chegar e se manter na quarta ou quinta posição dos países mais ricos do planeta, sendo a 80ª nação do planeta em desigualdade social, daí a necessidade de investimento pesado em programas sociais.
Lula sabe que, para quem tem fome, o que interessa é um prato de comida e não uma um lápis, um caderno ou uma escola. Daí a "malandragem": só ganha um prato de comida quem for á escola. Ainda dentro dessa "malandragem" está a ideia de que o volume de recursos do programa bolsa família destinado ás regiões mais pobres do país, alavanca suas economias. Investimentos estratégicos em infra-estrutura nestas regiões poderão fazer com que, num período muito curto, essas regiões deixem de ser dependentes do assistencialismo governamental e passem a contribuir efetivamente com o desenvolvimento da nação.
José Serra e sua turma sabem de tudo isso e querem chegar ao mesmo resultado, porém, por outros caminhos. Na visão dos Tucanos e dos Democratas o Brasil também é a bola da vez e eles querem estar em campo participando deste jogo vitorioso, porém, tem pouca ou nenhuma sensibilidade social e preferem apostar nas elites e nas classes médias como motores deste desenvolvimento econômico.
No campo externo, Lula e sua Turma, leia-se Dilma, aposta no relacionamento comercial com os países em desenvolvimento enquanto os Tucanos não sabem que existem outros países no mundo econômico além dos EUA. Isso faz muita diferença, se o Brasil tivesse a mesma dependência dos Estados Unidos em 2008 que tinha em 2000, nós estaríamos em seríssimas dificuldades agora.
Os movimentos sociais também são outro fator que diferenciam a turma do Lula e dos Tucanos, a primeira prefere a cooptação enquanto a segunda prefere o confronto.
Bem, é só uma questão de escolha.
José Antonio Martins Prestes

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A mídia e as eleições presidenciais de 2010 (primeiro turno)


A cobertura jornalística do processo eleitoral no primeiro turno das eleições presidenciais de 2010, assim como a divulgação diária de pesquisas de intenção de voto realizadas pelos institutos de pesquisa dentro dessa mesma cobertura, se constituiu em fator fundamental na decisão de parte significativa dos eleitores brasileiros, por isso, mais uma vez influiu significativamente no resultado das urnas. A verdade jornalística tem sido fator decisivo no resultados das eleições brasileiras desde o processo de redemocratização do país - que se iniciou em 1985 - e tem conferido ás elites políticas, sustentadas pelas elites econômicas e suportadas pelas elites militares, a manutenção no e do poder. A inteligência na construção e na manipulação da informação como ferramenta estratégica de poder substituiu gradativa e eficazmente a força bruta dos fuzis, dos calabouços e das torturas, não antes desses métodos terem cumprido o seu papel no regime autoritário.
A definição da pauta, a escolha dos entrevistados e dos entrevistadores, a edição das matérias associados a uma infinidade de outros recursos técnicos e cênicos, utilizados especialmente pela televisão, interferem diretamente na interpretação do expectador, de forma a direcioná-lo para determinadas conclusões, a favor ou contra um determinado candidato ou a uma determinada proposta ou postura política. Numa disputa presidencial como a brasileira os índices de aceitação e de rejeição dos candidatos estão muito suscetíveis a forma com que os grandes veículos de comunicação redigem, exibem e comentam suas matérias.
O caso do seqüestro do empresário Abílio Diniz, do grupo pão de açúcar em 1989 definiu o resultado da eleição daquele ano em favor do candidato Fernando Collor de Mello que disputava o segundo turno com Luiz Inácio Lula da Silva (o favorito até então). O caso do suposto tráfico de influência na chefia da casa civil, praticado pelos filhos da ministra Erenice Guerra, garantiu o segundo turno das eleições presidenciais deste ano entre a ex-ministra Dilma Roussef e o ex-governador de São Paulo José Serra. Os fatos em si têm muito menos importância do que as versões e as repercuções que a eles são dados pela imprensa. Guardado o devido afastamento do determinismo, do generalismo e do extremismo, estou argumentando aqui, que em disputas diretas, muito equilibradas, e em momentos específicos e estratégicos, o editorial de um tele-jornal como o jornal nacional da rede globo, pode definir o resultado de uma eleição presidencial.
Antes de colocar a “cobertura jornalística” e seus agentes num mesmo saco, é preciso separar os veículos de comunicação onde esses jornalistas atuam e fazem a divulgação dessa cobertura, de acordo com algumas características que os diferem; seja pelo público que atinge, seja pelo meio material que usa, seja pelo método de produção e divulgação da informação, seja pelo nível de independência que possui ou pelo tipo de regulamentação que obedecem e assim por diante.
Desta forma dividi os veículos de comunicação em três grupos: O rádio e a televisão, a imprensa escrita e a internet.
O rádio e a televisão (aberta) são veículos de comunicação de massa, operados historicamente através de concessões públicas por oligopólios familiares ou empresariais regionais, com claros interesses econômicos e políticos. Esses veículos, isoladamente ou em conjunto, atingem praticamente a totalidade das famílias brasileiras e são extremamente importantes na formação de opinião das pessoas de baixa renda e pouca escolaridade. Em função da restrição do tempo e do público alvo, as informações são muito simplificadas e condensadas. A metodologia utilizada para dar credibilidade instantânea ás noticias veiculadas pela programação jornalística destes veículos está na utilização da boa imagem o do conceito positivo construídos pelos próprios veículos, dos seus apresentadores e comentaristas. Por isso é fundamental que eles sejam revestidos de uma aura quase mítica.
A imprensa escrita, especialmente os grandes jornais diários e revistas semanais, atingem um público menor e mais “seleto”, com renda e escolaridade média e alta. Essas pessoas são mais criticas diante das informações que recebem dos veículos de comunicação e dos processos político e eleitoral, por isso, tomam posições e decisões somente depois de um processo de reflexão e/ou por interesse direto no resultado do pleito. Como são pessoas que possuem posição de destaque nos meios em que atuam, uns mais outros menos, acabam operando como formadores de opinião e influenciando o voto de pessoas que circulam em suas zonas de influência.
Uma característica importante dos jornais e revistas é que esses veículos se detêm mais detalhadamente no jogo de interesses das elites, produzindo subsídios para que os indivíduos dessa classe se posicionem e/ou atuem no processo eleitoral de acordo com suas convicções e interesses.
A internet aparece como uma terceira categoria de veículo de comunicação cuja especificidade está baseada em dois fatores peculiares: a interatividade e a desregulamentação que conferem a ela um caráter anárquico que a distingue dos demais veículos. Enquanto as rádios, televisões, jornais e revistas estão engessados por suas direções editoriais, pelos interesses de seus proprietários e anunciantes por regras legais, a internet goza de maior liberdade crítica diante do processo político eleitoral.
É fato que os proprietários de veículos da chamada grande imprensa estão ocupando, cada vês mais, espaços na internet com seus portais de notícias e de entretenimento, tentando, estrategicamente, manter a hegemonia na produção, na manipulação e na divulgação da informação. Ainda assim existem sites e blogs independentes, além de uma infinidade de redes sociais subvertendo este processo de domínio da informação e do conhecimento, garantindo á internet uma relativa, porém, substancial independência.
Num país de 190 milhões de pessoas, com dimensões continentais, nível de escolaridade baixa e um sistema educacional precário; recém saído de uma ditadura militar que durou mais de vinte anos, com pouquíssima tradição democrática, o rádio e a televisão, assumem uma importância fundamental no dia-a-dia das pessoas como fonte de entretenimento e de informação por um lado, e como elemento de integração e sentimento de pertencimento por outro, isso não é pouca coisa. Como uma estrutura estruturada para integrar definitivamente o Brasil, os diversos governos e regimes de nossa história recente utilizaram essas ferramentas para consolidar uma elite política, econômica e militar no poder, distribuindo estrategicamente as concessões desses veículos para aliados enquanto combateu (e combate), qualquer iniciativa que aponta para a criação de rádios ou televisões independentes.
Neste contexto, as pesquisas de intenção de voto cumprem um duplo papel, um nobre, outro pobre. O nobre: a função de informar o público sobre as tendências dos votos dos eleitores no momento da realização da pesquisa. O pobre: direciona o voto daqueles que acreditam ser importante votar no candidato vencedor. Na lógica do eleitor de baixa renda e baixa escolaridade, dar o voto ao vencedor, não só o credencia a pedir, mas especialmente, a receber os favores destes. Portanto, mais que informar, as pesquisas direcionam o voto de uma parcela importante do eleitorado.
Sem fazer julgamento de valor e considerando papel e a importância da imprensa e da divulgação de resultados de pesquisas de intenção de votos para o nosso processo político e eleitoral, considero que ambos estão sujeitos facilmente á manipulação e são utilizados constantemente pelas forças políticas dominantes para direcionar o voto de uma parcela do eleitorado, de forma a atingir objetivos específicos, como nos dois exemplos dados anteriormente.
De certa forma considero que minha abordagem ao tema vai de encontro ao conceito de Adorno e Horkheimer de que construímos e operamos um sistema midiático que direciona a vontade e as escolhas da maioria, atuando tecnicamente na vontade alienada de uma “minoria”.
Outro ponto convergente me parece ser o de que os veículos de comunicação de massa são, antes de mais nada, veículos de massificação da indústria cultural, que cumprem o papel da alienação a serviço de um projeto de dominação.
Em relação a Jürgen Habermas procurei demonstrar que as concessões das freqüências de rádio e dos canais de televisão no Brasil, para famílias e grupos políticos apoiadores dos regimes, vão de encontro ao seu conceito de refeudalização da nossa sociedade. Neste contexto o econômico e o político se fundem e se confundem no seu conceito de razão instrumental.
O processo de midiatização da política tem contribuído para que haja por parte dos partidos políticos uma preocupação cada vez maior com a embalagem e as técnicas de venda dos seus candidatos como produtos, do que com planos de governos, propostas programáticas ou identidade ideológica. Neste sentido vejo a identificação do texto de W. Benjamin ao dizer que o político profissional representa a si mesmo diante dos veículos de comunicação de massa.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Menos Castro, mais Adam Smith

Quando estive em Havana, em 2008, para entrevistar Yoani Sanchez,conheci pequenos guerrilheiros da iniciativa privada que usavam a imaginação para levar pra casa alguns trocados a mais do que o parco salário mensal que o governo lhes pagava.

Num mundo cinzento de funcionários públicos que executam tarefas mecânicas só para cumprir tabela,o espírito empreendedor se manifestava através de pequenos truques,como a da camareira do hotel, que oferecia por 3 pesos a garrafa de água que na tabela valia 5,ou a lavadeira e passadeira que driblava a gerência do hotel e embolsava os 6 pesos pelo trabalho que ela mesmo fazia, num contrato direto e informal com o cliente: eu faço, você me paga.

Havia também o ex-professor de educação física que um dia foi apanhado tentando ir embora do País,perdeu o emprego, e vive de transportar passageiros clandestinamente com o seu oficialmente inexistente Morris 1952, um carro que ainda se locomove em acintoso desafio às leis da mecânica e da física; o esperto garoto brasileiro bolsista de Medicina, que ganhou uma vaga por conta da “cota dos movimentos sociais”, e que vendia legítimos havanos no hall do hotel para poder custear as suas férias no Brasil.

Lembrei desses pequenos personagens esta semana, quando o governo cubano anunciou que demitirá 500 mil funcionários do Estado para tentar dar um pouco de funcionalidade à economia do país. O modelo, como disse e desdisse sem desdizer o primeiro e original exemplar vivo de ditador aposentado, Fidel Castro, numa entrevista a uma revista liberal norte-americana, não funciona mais- se é que algum dia funcionou.

Os irmãos Castro parecem estar à procura de alguma espécie de réplica do modelo chinês, algo como um “socialismo de mercado”, para tentar sair da crise em que enfiaram a pequena ilha desde que eles mesmos construíram esse estranho paraíso de inércia, de desencanto e de acomodação em que ela foi se afundando nestes últimos 50 anos, principalmente depois da perda da sua alma mater ideológica e econômica, a falecida URSS.

Os cubanos chamam essa maneira de sobreviver de “vivir por la izquierda”, um jeito de escapar das regras e das proibições oficiais e das misérias e limitações institucionais de um modelo socialista esclerosado e paralisante.

Onde vão trabalhar os 500 mil demitidos? Vão criar coelhos, dirigir bicitáxis ou vender charutos nas esquinas? Se os velhos marxistas aposentassem seus revolucionários livros-textos e suas idéias caducas de engenharia social, e passassem a ler Adam Smith,talvez concluíssem que a solução está aí mesmo,à vista de todos,em cada um dos seus reprimidos pequenos empreendedores.Bastaria prestar atenção neste trecho de “A Riqueza das Nações”:

“O esforço natural de cada indivíduo para melhorar sua própria condição, quando se lhe permite ser exercitado com liberdade e segurança, é um princípio tão poderoso que ele é capaz,por si só,e sem qualquer assistência,não apenas conduzir a sociedade à riqueza e prosperidade,mas de sobrepujar uma centena de observações impertinentes com as quais a estupidez das leis humanas com tanta freqüência estorva sua operação”.

É tudo de que Cuba precisa: menos Castros,mais Adam Smith


Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez.. E.mail: svaia@uol.com.br

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domingo, 8 de agosto de 2010

1º Debatge presidenciável de 2010

Deu no Correio Braziliense
O Primeiro debate

De Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Popul

Em uma das eleições presidenciais mais previsíveis que fizemos no Brasil moderno, o que esperar do primeiro debate entre os candidatos na televisão? Que fosse ... previsível, tanto quanto o que a Bandeirantes realizou quinta feira. Nele, tudo que se imaginava aconteceu.

Era previsível uma baixa audiência, e foi o que tivemos. Pelos números preliminares disponíveis, o pico de audiência alcançou pouco mais que 5% na Grande São Paulo e dificilmente terá sido maior no conjunto do país. Para deixar dramaticamente claro quão pequeno é o interesse do telespectador médio por programas de conteúdo político, na abertura do debate a emissora perdeu metade da audiência. “Polícia 24 horas” terminou com 6% e o encontro dos presidenciáveis começou com 3%. Mais adiante, a proporção de televisores sintonizados caiu a pouco mais que 1%.

Era previsível que esse debate fosse tratado como um episódio na guerra entre as emissoras e foi o que elas fizeram. Enquanto não mudarmos nosso modelo, em que cada uma faz o “seu debate”, é isso que sempre teremos. Faz sentido o que está combinado para este ano, em que os candidatos irão a todas, apenas por que essa é a conveniência delas? Será que um dia chegaremos ao bom senso de ter debates em rede, como os americanos, onde a competição entre as emissoras é mais acirrada que aqui? Espremido entre o futebol de uma e a habitual profusão de programas “populares” das outras, o debate foi o perdedor na batalha pela audiência noturna da quinta feira.

Era previsível que os abnegados que fossem assisti-lo (especialmente os poucos que ficaram até o fim, depois da meia noite) tivessem características bem diferentes do eleitor comum. As pesquisas sobre o perfil da audiência não estão concluídas, mas é fácil apostar no que mostrarão, pois é o que acontece no mundo inteiro: que terão visto o debate eleitores de escolaridade e renda mais elevadas, mais velhos e predominantemente do gênero masculino. Mas o fundamental é que terão sido pessoas de interesse significativamente mais alto por questões políticas, mais informadas, mais atentas ao cotidiano do processo eleitoral e mais curiosas a respeito dos candidatos.

São pessoas que costumam ter identidades políticas e/ou partidárias estruturadas e fundamentadas, e que, em função disso, se decidem precocemente. Para elas, a eleição começa cedo, os prós e os contras dos candidatos são logo avaliados e a dúvidas sobre o que fazer no dia da eleição mínimas.

Quem vê com atenção um debate como esse, em um horário como aquele, já decidiu se vota Dilma, Serra ou Marina, ou se não vota em nenhum dos três. Por seu interesse e informação, é uma pessoa que, tendo chegado a uma escolha, não a muda por impulso, talvez como fizesse outra para quem a questão fosse menos importante. Para ela, o escorregão, a gafe, o gaguejo de um candidato são irrelevantes: não fazem com que deixe de votar no candidato escolhido ou que opte por um em quem havia decidido não votar. Ela ri das dificuldades dos adversários do “seu candidato”, mesmo que se incomode com os deslizes que ele ou ela cometem.

Era previsível que não fosse um debate acalorado e emocionante, cheio de tiradas espirituosas e de eloquências. Quem conhece os candidatos que temos não esperava que eles repetissem o que antigos mestres faziam em situações parecidas. Nenhum é um Brizola e isso estava nítido.

Era previsível que o nervosismo afetasse de maneira diferente os candidatos e foi o que as câmeras mostraram. Serra, no seu enésimo debate, era o mais à vontade, tanto quanto pode estar alguém cujas perspectivas se tornam, a cada dia, mais preocupantes. As estreantes Dilma e Marina (pois não se pode considerar que a experiência anterior da senadora a tivesse preparado para uma noite como aquela) estavam mais tensas. Quanto a Plínio de Arruda Sampaio, sua posição era a que se espera de quem nada tem a perder. De todas, a mais confortável.

Deixando de lado as avaliações dos torcedores (pois quem tem simpatia por uma candidatura sempre diz que seu candidato foi superior aos demais), é quase consensual a opinião de que ninguém “ganhou o debate”. Superado um primeiro momento visivelmente favorável a Serra, Marina e Dilma se equilibraram e empataram com ele, indo assim até o final. Quem viu, com alguma isenção, mais que o primeiro bloco dificilmente dirá que houve perdedores e ganhadores.

Se essa impressão de jornalistas e profissionais for confirmada pelas pesquisas de impacto - direto e secundário- na opinião pública, quem talvez mais tenha lucrado foi Dilma. Não perder é um bom resultado para quem está na frente. Adicionalmente, adquiriu experiência para os próximos, aumentando sua autoconfiança, que é o que mais conta para um bom desempenho neles.

Serra e Marina é que têm que reverter as tendências que estão em curso. Para ambos, o debate da Bandeirantes não foi ruim, mas não foi tão bom quanto desejariam (ou precisariam).

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Simplesmente BIZARRO

Para quem gosta de coisas estranhas, bizarras, não deve deixar de ver este vídeo: cerimônia de abetura do sarcófago de Simom Bolivar (para exumação), narrada por ninguém menos que o Ditador Hugo Chaves.

http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/768500-chavez-exibe-esqueleto-de-simon-bolivar-na-tv-veja.shtml

Do UOL notícias de 16/07/10

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dicas de oratória

Causar uma boa impressão ao eleitor, não é uma tarefa fácil. Para o professor de oratória Reinado Polito, um candidato passa credibilidade quando fala com naturalidade, conhecimento e coerência.

No vídeo (veja o link), ele enumera os problemas e as táticas de comunicação dos presidenciáveis José Serra, Dilma Roussef e Marina Silva. Além disso, explica que fazer pausas no momento certo faz do candidato um bom comunicador. "Ele demonstra mais segurança se faz um gesto e segura o movimento, não tendo pressa de voltar à posição de apoio, e fala olhando para as pessoas, sem fugir com os olhos", exemplifica.


http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/767116-presidenciaveis-escorregam-em-seus-discursos-veja-analise.shtml

Matéria editada do OUL Noticias do dia 15/07/10

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ficha suja!!!

O texto aprovado anteontem pela Câmara do projeto Ficha Limpa atinge só 1 político dos 70 deputados federais e 3 senadores paulistas e dos 37 líderes partidários do Congresso.

Levantamento da Folha nestas bancadas mostra que 37 congressistas já foram condenados, ou são réus ou indiciados, de acordo com o site da Transparência Brasil, mas apenas Paulo Maluf (PP-SP) tem uma condenação por órgão colegiado que se enquadra nos requisitos da proposta, que ainda será discutida no Senado.

Maluf responde a pelo menos outras dez ações. Por meio de sua assessoria, o deputado disse que já recorreu e não desistirá da sua candidatura.

Pelo projeto, ficam inelegíveis os condenados por decisão colegiada da Justiça (por mais de um juiz), mas cria-se o chamado efeito suspensivo, que permite recurso a outro órgão superior colegiado.

A Folha checou as condenações já existentes e, à exceção de Maluf, os parlamentares teriam direito de se candidatar pelo que está na proposta.

A pouca eficácia sobre congressistas ocorre, para especialistas, por eles terem foro privilegiado (seus processos são julgados por órgãos superiores).

Para o secretário-geral da OAB, Marcus Vinícius Furtado Coelho, o problema agora está com a Justiça. "Estamos pedindo ao Conselho Nacional de Justiça que determine metas para os tribunais julgarem processos de improbidade e de corrupção", afirmou.

A proposta da Câmara é elogiada pela prioridade de julgamento para os casos de candidato condenados que entrarem com recurso, o que vai evitar o protelamento das ações, e pela perda do mandato ser imediata (após os julgamentos).

Os parlamentares que renunciarem até a aprovação do texto não serão atingidos. Só quem renunciar após o início da vigência não poderá concorrer, afirmam especialistas. Há dúvidas ainda sobre o prazo que políticos cassados ficarão sem poder concorrer. E se a norma valerá para esta eleição.

Erick Pereira, professor de direito eleitoral, afirma que o texto pode ser contestado no STF por não respeitar o princípio da presunção da inocência.

Matéria do uol notícias de 09/06/10

DIMMI AMORA
MARIA CLARA CABRAL
da Sucursal de Brasília




domingo, 6 de junho de 2010

A política dos políticos

A política como ele é:

http://noticias.uol.com.br/politica/2010/06/06/perfil-de-lula-no-governo-mudou-apos-escandalo-do-mensalao.jhtm

José Antonio Martins Prestes

sábado, 5 de junho de 2010

Espionar é preciso.

Não se faz campanha eleitoral sem espionagem, portanto a existência do suposto dossiê que o PT estaria preparando sobre Serra, seus familiares e políticos próximos não só tem procedência, como também é verdade que os tucanos espionam os petistas, porém com maior competência.

A notícia, sem nenhuma novidade, é a displicência com que os petistas estão usando esta ferramenta estratégica, uma demonstração absurda de amadorismo e de ansiedade dos atuais coordenadores de campanha de Dilma. Não é por acaso que Antonio Palocci deverá assumir e concentrar a coordenação da campanha, a mando de Lula.

Sem demagogia ou subterfúgios, a espionagem é uma instituição muito antiga e continua atualíssima, tanto que todos os governos, sem exceção, mantêm grupos de espionagem para informar-se sobre seus amigos e inimigos (internos e externos), a empresas espionam-se mutuamente o tempo todo, no meio sindical (origem básica do PT), quem não espiona não existe, e vai por aí a fora.

Algumas das regras básicas da espionagem:

Quem não espiona não tem nenhuma chance na guerra;
Espião tem que ser muito competente e muito bem pago;
Espião descoberto é espião morto.


José Antonio Martins Prestes