“O novo, o novo sempre vem.”Belchior, poeta e músico brasileiro.
Não quero dizer, com isso, que os alunos das ciências sociais em especial, ou os das ciências humanas em geral, não devam estudar os pensadores clássicos ou a história. É importante saber como chegamos até aqui e como os grandes pensadores do passado interpretaram o seu tempo e projetaram o futuro, ou como e porque os agentes que “construíram” a história agiram dessa ou daquela forma, ou ainda como as diversas sociedades do passado foram atingidas e reagiram aos eventos que mudaram os rumos da humanidade. Minha reflexão parte do princípio hegeliano de que devemos conhecer a história e o pensamento dos homens que melhor a interpretaram, não para repeti-la, mas para entender o presente e participar, dentro de nossas respectivas áreas de atuação ou influência, da construção do futuro, de forma realista, responsável e consciente.
Realista no sentido de interpretar as coisas e os acontecimentos sem paixões, consciente no sentido de saber que nossas escolhas individuais podem negar ou confirmar as “escolhas coletivas”, e responsável, no sentido de conhecer as conseqüências dessas ações ou escolhas. Quando perdemos a capacidade de fazer escolhas estamos perdendo nossa liberdade e nossa vitalidade (Hayek, 1994).
Depois de duas guerras mundiais (e da guerra fria), que praticamente destruíram e dividiram a Europa no século passado e instituiu o medo do apocalipse, houve na segunda metade do século XX o surgimento de uma terceira via do pensamento político e econômico, que em tese juntava os pontos positivos (e eliminava ou minimizava os pontos falhos), das duas correntes clássicas que sempre estiveram em conflito desde o início da modernidade: democracia política com liberalismo econômico versus socialismo ou comunismo com o estado controlando a economia e a sociedade.
Nasceu então a chamada social-democracia, como uma fórmula que resolveria, finalmente, todos os problemas das sociedades modernas na medida em que se conseguisse atingir o desenvolvimento econômico, associado ao estado de bem-estar social para a maioria.
Vários líderes dos mais importantes países ocidentais se engajaram nesta corrente de pensamento no final do século passado, Bill Clinton nos Estados Unidos, Tony Blair na Inglaterra, Romano Prodi na Itália, Lionel Jospin na França, Jean Chrétien no Canadá, Gerard Schoröder na Alemanha, Carlos Menen na Argentina, Carlos Salinas e Ernesto Zedillo no México, Fernando Henrique Cardoso no Brasil e até mesmo Boris Ieltsin na Rússia (Giddens, 1991).
Se na teoria o problema se encaminhava para uma solução, na prática, várias crises políticas e econômicas atingiram o mundo na passagem para os anos 2000, revelando que alguma coisa não saíra como o esperado. Seja por falha do sistema ou dos operadores (Giddens, 2001). O surgimento de inúmeros conflitos localizados ou regionalizados ao redor do planeta, bem como a quebra da bolsa de Hong Kong em 1997 e suas conseqüências para o mercado financeiro e para a economia dos principais países globalizados, mostraram que a solução do problema passava por questões muito mais profundas, complexas e abrangentes do que simplesmente unificar os conceitos de crescimento econômico, baseados nas leis de mercado, com a garantia simbólica de um estado de bem-estar social. Como se refere Giddens (1991), ás relações globalizantes - o local e o global.
Para manter sua soberania mundial e o elevado grau de individualismo e de consumo de seu povo (Giddens, 1991), os Estados Unidos continuaram praticando no pós-guerra sua política intervencionista e militarista ao redor do mundo. Essa política, que praticamente destruiu o estado iraquiano com a guerra deflagrada em 1990, que culminou com a invasão daquele país pelos americanos e seus aliados em 2003, controla militarmente o frágil estado afegão desde 2001, tem alimentado uma instabilidade crescente no oriente médio e o ódio de muitos de seus cidadãos ao povo e ao Estado norte americano. O atentado de 11 de setembro de 2001 é conseqüência desse ódio. O imperialismo não poupou os Estados Unidos (em julho/agosto de 2008) de mergulharem em uma das maiores crises imobiliárias, financeiras e econômicas de sua existência, com conseqüências que se arrastam até hoje.
Os estados europeus ocidentais buscaram no final do século passado se unificar e se fortalecer política e economicamente, não só com relação aos Estados Unidos, mas também com relação à China, à África, à América Latina e também à Europa Comunista, na tentativa vã de proteger sua economia, seu desenvolvimento social, seu mercado interno e seus empregos. A efetivação de tantos direitos sociais conquistados depois da segunda guerra mundial, sem lastro econômico, acabou provocando o endividamento público da maioria dos países pertencentes ao mercado comum europeu. As convulsões sociais que têm ocorrido atualmente na Grécia, na França e na Espanha parecem ser apenas a ponta de um grande iceberg. É a perda de controle dos resultados ou as conseqüências indesejadas a que Ulrick Beck (1997), se refere ao tratar dos riscos derivados de uma dinâmica altamente tecnológica.
A Europa oriental, capitaneada pela Rússia, que emergiu da segunda guerra mundial como uma das grandes potências vencedoras do conflito, mergulhou numa experiência comunista (ou para alguns: socialista) desastrosa. A URSS foi construída em 1922 e mantida até 1989, á custa de várias dezenas de milhões de mortos em vão. A esta tentativa de construção de um estado leninista-trotskista-stalinista-marxista, foram anexados uma série de países onde democracia, liberdade e direitos humanos simplesmente não existiam. As intermináveis crises de produção e de distribuição de itens básicos para a sobrevivência humana nesses países comunistas do leste europeu, só ficaram menos evidentes do que a generalizada corrupção que tomou conta das burocracias dos estados que o compunham.
Enquanto na África ocorreu e ocorre um processo de esfacelamento de inúmeros países recém descolonizados em função de conflitos étnicos, da miséria, do atraso econômico, da inexistência de estados constitucionais, partidos minimamente consolidados e do mínimo de democracia e de respeito aos direitos humanos. Na América Central e do Sul, ronda-nos ainda o “espectro do comunismo”, baseado em líderes populistas e demagógicos como Hugo Chaves na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e de Rafael Correia no Equador. Inspirados numa retórica requentada do bolivarianismo e no exemplo cubano de bem-estar social do moribundo Fidel Castro. Esses “líderes carismáticos” latino-americanos têm conseguido, com muito sucesso, tão somente socializar o atraso e a miséria em seus respectivos países. Enquanto desperdiçam seu tempo e os preciosos recursos de seus povos na construção de inimigos externos e internos (Schmitt, 1992), sem questionar as suas próprias deficiências e limitações.
Neste contexto, surge a China comunista como um componente especial. Saída de sua era medieval a pouco mais de 50 anos, se apresenta ao mundo como um mercado consumidor de 1,35 bilhões de cidadãos sedentos por produtos de primeira necessidade com baixo valor agregado; enquanto se impõe com uma política comercial externa extremamente agressiva, despejando no mercado mundial bens semiduráveis de baixa qualidade com preços muito competitivos. Os preços baixos dos produtos chineses estão diretamente relacionados a vários fatores: a desvalorização artificial de sua moeda, a sua mão-de-obra baratíssima e farta (principalmente porque não respeita ou simplesmente não possui direitos trabalhistas), a exploração de recursos naturais sem nenhum respeito aos impactos ambientais, a prática de uma política fiscal mínima e porque possui boa parte de sua produção baseada na pirataria e de sua rede de distribuição ligada ao contrabando e ao crime organizado.
Isso criou um paradoxo impensável: um país comunista, politicamente fechado, sem democracia, liberdade ou direitos humanos, cresce há vários anos a uma média superior a 9%, executando uma política comercial capitalista, enquanto países capitalistas, tentando praticar uma política de crescimento econômico e social e ambientalmente sustentáveis (como é o caso de alguns países europeus), enfrentam graves crises econômicas.
Depois da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, o capitalismo industrial e os processos de produção praticados pelos países comunistas, além das muitas crises econômicas, políticas e sociais, que levaram a humanidade ás duas guerras mundiais e á guerra fria no século XX, produziram uma imensa devastação nos recursos naturais do planeta, destruíram florestas, extinguiram espécies, poluíram terras, rios, mares e ares. Na sociedade moderna a destruição da natureza não foi encarada como um risco, mas sim como um sinal de progresso (Foucalt, 1979).
Segundo o Dr. Luis Valdés, diretor do Centro Oceanográfico de Gijón, na Espanha, o aquecimento global está aumentando consideravelmente os níveis dos oceanos e esse fato está produzindo um novo fenômeno social: os refugiados climáticos. É o caso de Bangladesh, que com sua elevada densidade populacional e pouca altitude, o aumento do nível do mar obrigará 20 milhões de pessoas a emigrar nos próximos 50 anos para regiões e países mais elevados.
Esse descaso com a natureza e suas conseqüências (ainda pouco estudadas e avaliadas) aparece como um novo subproduto da forma com que nós, seres humanos racionais, estamos lidando com nós mesmos e com o planeta que nos abriga.
Na esteira deste processo de crescimento econômico da era industrial, apareceu então um problema novo: o planeta Terra não pode mais ser visto nem tratado como uma fonte inesgotável de matérias primas e/ou como uma enorme lata de lixo. As questões ambientais agora estão presentes nas pautas de todas as reuniões de cúpula do planeta, seja do G7, do G8, do G20 ou da ONU.
Se o iluminismo e o racionalismo dos séculos XVII/XVIII/XIX foram aspectos fundamentais tanto para a eclosão da Revolução Industrial inglesa, quanto para o advento da Revolução Política Francesa (com a invenção do telescópio, do microscópio, das primeiras máquinas a vapor ou com o surgimento da imprensa – que multiplicou e difundiu a informação para fora dos círculos dominados pela igreja, iniciando o processo de desdivinização/racionalização do mundo), a revolução tecnológica que vivenciamos e a Internet estão cumprindo um papel muito parecido atualmente. Guardadas as devidas proporções e peculiaridades.
”A transição da sociedade industrial para a sociedade do conhecimento é o mais importante vetor das transformações sociais das últimas décadas. Essa transformação tem gerado importantes conseqüências nas teorias econômicas e sociológicas, mas é pouco enfatizada na teoria das relações internacionais”. (Viola e Leis, 2007)
A comunicação por satélites, a revolução da informática, a nanotecnologia, a decodificação da estrutura do DNA, a transgenia, a extração de petróleo em águas profundas, a robótica, as sondas espaciais, são apenas algumas das aplicações do alto conhecimento técno-científico atual, que não estão sendo devidamente acompanhadas ou controladas por estados constituídos nos moldes dos três séculos passados, por serem lentos, burocráticos, pesados, retrógrados.
Depois da internet, que é um fenômeno extraordinário dos nossos tempos (na medida em que linhas telefônicas convencionais ou via satélite podem ser acessadas em qualquer lugar do mundo e do baixo custo dos computadores pessoais, está ocorrendo a popularização deste meio anárquico de construções de redes de comunicações e de interação), não existem mais fronteiras físicas ou barreiras ideológicas, o mundo não é mais o mesmo.
Os atuais chefes de estado dos principais países do mundo estão sentindo a cada dia que passa o esvaziamento de seus poderes, diante da sua impotência tanto para dar respostas satisfatórias às velhas demandas, quanto para acompanhar os avanços desse capitalismo tecnológico.
Para tratar dos velhos e dos novos problemas, das antigas e das atuais demandas e acompanhar o rápido processo evolutivo ou de mudança da sociedade atual, inclusive e especialmente o vertiginoso crescimento populacional acompanhado da exponencial concentração humana nos grandes centros urbanos, é necessário não só a renovação das classes políticas atuais, mas também a renovação da retrógrada mentalidade política, que deverá estar voltada para construir um mundo globalizado e efetivamente integrado política, militar, econômica, tecnológica, social e ambientalmente. Do contrário continuaremos a ver nos noticiários os sucessivos fracassos dos encontros dos velhos lideres para rediscutir as velhas questões, sem sequer entender as transformações do mundo atual. Neste nebuloso e desregrado contexto internacional, deve prevalecer o papel do político e da ação política (Schmitt, 1992), tanto na consolidação dos pontos convergentes quanto no equilíbrio necessário e possível nas questões onde não existe acordo.
Se os conflitos tribais e étnicos na África, bem como a miséria e a falta de perspectivas daqueles povos não forem resolvidos, de nada adiantará à Europa construir muros para conter a imigração daqueles que nasceram em suas antigas colônias e nelas não encontram como sobreviver.
O mesmo processo ocorre com os Estados Unidos em relação ao México: se a situação de miserabilidade e a falta de oportunidades para os jovens mexicanos não for resolvida, nada se poderá fazer para conter a emigração em massa dos mexicanos em busca do “sonho americano”.
Não há problema ambiental ocorrido na China, na Sibéria ou no golfo do México que não afete todo o planeta e todos os seres vivos, assim como o desenvolvimento tecnológico está em todos os lugares, vai para todos os lugares sem o menor constrangimento.
Foi muito importante o trabalho realizado por Karl Marx, que, como homem de seu tempo, fez brilhantes diagnósticos dos males que afetavam a Europa do século XIX e das perspectivas que se avizinhavam, porém, suas propostas para corrigi-los não foram tão felizes, e a prática de sua teoria e de seus pensamentos produziu os resultados já mencionados. Em seu ideário de uma sociedade perfeita, o comunismo, Marx igualou os desiguais e desconsiderou as individualidades e o indivíduo (apesar da opinião daqueles que consideram que as idéias de Marx nunca foram colocadas literalmente em prática, por isso o verdadeiro comunismo ainda não foi experimentado e, portanto, não pode e nem deve ser criticado).
Por outro lado as correntes teóricas, filosóficas, políticas e econômicas que predominaram no período do capitalismo industrial (o Liberalismo, o Utilitarismo e o Elitismo), na mesma medida em que foram capazes de produzir grandes volumes de riqueza, não tiveram o mesmo interesse ou a mesma competência em distribuí-la com justiça. De qualquer forma, a retórica da democracia, da liberdade e da possibilidade de ascensão social e econômica, que foram mais convincentes do que as idéias de comunismo, do socialismo ou do anarquismo, acabaram por produzir graves problemas sociais e ambientais e precisa ser reavaliada urgentemente
Para os dias hoje e quiçá para o futuro que estamos construindo, a máxima: “Pensar globalmente e agir localmente” me parece muito atual.
Enquanto os líderes dos principais estados nações tratarem as questões globais delimitando-as setorialmente, geograficamente ou tematicamente, sem considerar que tudo está interligado com tudo e afeta a todos, mesmo que de forma ou em tempos diferentes, os fracassos nas reuniões dos G7, G8, G20, COP15, COP16 ou mesmo da ONU se repetirão.
Diante do exposto, defendo a constituição de um Contrato Social Mundial e da transformação da ONU num Parlamento Global, formado por diplomatas de todos os países, com poder efetivo de voz, voto e veto, onde os valores da Democracia e do respeito absoluto á liberdade e aos direitos da pessoa humana e a sustentabilidade social e ambiental, sejam o seu ponto de partida. Avançando um pouco mais o conceito de Sartori (1994), da construção de um Direito Internacional.
O futuro precisa ser construído, não com as idéias ou com os ideais do passado, mas com o aprendizado que a implantação dessas idéias produziu, considerando as circunstâncias atuais e a projeção da sociedade e do planeta que desejamos para nossos filhos e netos.
Referências:
ARENDT, Hannah. (2000), As origens do totalitarismo. São Paulo, Cia das letras.
ARENDT, Hannah. (1972), Entre o passado e o futuro. São Paulo, Perspectiva.
ARENDT, Hannah. (2001), A condição humana. Rio de Janeiro, Forense.
BECK, Ulrich. (1997), A reinvenção da política. São Paulo, Editora Unesp.
BOBBIO, Norberto. (1985), El futuro de La democracia. Barcelona, Plaza & Janes.
FOUCAULT, Michel.(1979), A microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal.
FUKUYAMA, Francis. (2000), A grande ruptura. Rio de janeiro, Rocco.
HAYEK, Friederick. (1994), O caminho da servidão. Rio de Janeiro, Editora do exército.
GIDDENS, Anthony. (1991), As conseqüências da modernidade. São Paulo, Editora Unesp.
GIDDENS, Anthony. (2001), A terceira via e seus críticos. Rio de Janeiro, Record.
HELD, David. (1997). La democracia y el orden global. Barcelona, Paidós.
SARTORI, Giovanni. (1994). A teoria da democracia revisada (vol. 1). São Paulo, Ática.
SCHMITT, Carll. (1992), O conceito da política. Petrópolis, Vozes.
VIOLA, Eduardo e LEIS, Héctor Ricardo. (2007), Sistema internacional com hegemonia das democracias de mercado: desafios de Brasil e Argentina. Florianópolis, Insular.
José Antonio Martins Prestes





