terça-feira, 30 de agosto de 2011

Em busca de um novo modêlo


Os quatro pilares do sistema global estão se desfazendo ao mesmo tempo

Thomas L. Friedman

Matéria publicada no UOL Notícias de 30/08/2011

Segurem os seus chapéus e carteiras. Desde o fim da Guerra Fria, o sistema global vem se mantendo coeso em grande parte devido a quatro acordos críticos. Atualmente todos os quatro estão se desfazendo ao mesmo tempo e precisarão ser reconstruídos. Se e como será feita tal reconstrução – começando pelos Estados Unidos – é o que determinará em grande parte o que conterá a nossa carteira e se o nosso chapéu sairá ou não voando.

Bem, vou colocar a situação de forma bem direta: a União Europeia está se fragmentando. O mundo árabe está desmoronando. O modelo de crescimento da China está sob pressão e o modelo de capitalismo dos Estados Unidos, movido pelo crédito, sofreu um ataque cardíaco de advertência e necessita passar por uma total reavaliação. Promover uma reforma de um só desses fatores já seria uma tarefa enorme. Mas implementar as quatro ao mesmo tempo – em um momento no qual o mundo se encontra mais interconectado do que nunca – seria algo simplesmente extraordinário. Nós nos vemos novamente “presentes na criação” - mas na criação do que?

Comecemos pelo Oriente Médio, o poço de petróleo do mundo. Os líbios acabam de se juntar aos tunisianos, egípcios e iemenitas na derrubada dos seus ditadores, enquanto os sírios e os iranianos esperam seguir esse exemplo em breve. Com o tempo, praticamente todos os autocratas do Oriente Médio serão depostos ou obrigados a compartilhar o poder. O velho modelo não tem como se sustentar. Tal modelo baseava-se em reis e ditadores militares que se apossavam das receitas oriundas do petróleo, entrincheirando-se no poder – protegidos por exércitos e serviços de segurança bem financiados – e comprando segmentos chaves das suas populações. A tampa que escondia essas práticas foi arrancada explosivamente por uma rebelião da juventude árabe que atualmente pode ver como todos os demais estão vivendo e que não aceita mais prontamente ser deixada para trás, não receber educação, ficar desempregada, ser humilhada e viver em estado de impotência. Mas embora esse velho sistema do Oriente Médio – baseado em um punho de ferro e na manipulação de petrodólares para manter coesas sociedades multiétnicas e multirreligiosas – tenha se fragmentado, levará algum tempo para que essas sociedades redijam os seus próprios contratos sociais para determinar como elas viverão sem que haja um punho de ferro controlando-as a partir de cima. Esperem o melhor, mas preparem-se para tudo.

Mais ao norte, a União Europeia e da zona do euro constituíam-se em uma boa ideia, que poderia ser exposta da seguinte forma: teremos a partir de agora uma união monetária e uma moeda comum, mas deixemos que cada um administre a sua própria política fiscal, contanto que eles prometam trabalhar e poupar como os alemães. Ah, mas isso era muito bom para ser verdade. Grandes programas de welfare (Estado de bem-estar social) em alguns países europeus, sem contar com as rendas oriundas da produção local para financiá-los, acabaram levando a uma montanha de dívida – dívida que são, em sua maioria, propriedade de bancos europeus – e, a seguir, a uma revolta dos credores. Os produtores e poupadores do norte da Europa estão agora costurando um novo acordo com os gastadores – os chamados PIIGS: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. É improvável que os alemães simplesmente pulem fora da União Europeia, já que uma grande parcela das suas exportações se destina a esses países que gastam demais e que não são competitivos. Em vez disso, os europeus do norte estão tentando impor aos PIIGS uma disciplina mais rígida e baseada em regras. Mas que quantidade de medidas austeras esses países seriam capazes de absorver, especialmente se houver mais estresse social devido a recessões profundas? Não serão apenas os londrinos que sairão às ruas. De uma maneira ou outra, a União Europeia ficará menor ou mais rígida, mas nesse processo ela poderá passar por uma transição caótica e traumática que ainda não foi contabilizada em termos de mercado.

Seguindo para o leste, a China tem se baseado em um modelo construído sobre uma moeda deliberadamente desvalorizada e em um crescimento liderado pela exportação, com baixo consumo doméstico e alto nível de poupança. Isso permitiu ao Partido Comunista chinês sustentar um acordo único com o seu povo: nós lhes daremos empregos e melhores padrões de vida, e vocês nos darão o poder. Mas agora esse acordo está ameaçado. O desemprego persistente nos mercados norte-americanos e europeus da China está fazendo com que o modelo de Pequim, baseado em uma moeda desvalorizada, no baixo consumo e no alto índice de exportação, se torne menos sustentável para o mundo. A China também precisa enriquecer antes que envelheça. Ela precisará sofrer uma mudança de uma situação em que os dois genitores poupam para um filho, para outra em que um filho pagará pela aposentadoria dos dois genitores. Para fazer isso, o país precisará fazer uma transição de uma economia baseada na montagem, na cópia e na manufatura para outra baseada no conhecimento, nos serviços e na inovação. Isso exigirá maior liberdade e mais Estado de direito, e já é possível presenciar uma demanda crescente por isso. Alguma parte terá que ceder na China.

Quanto aos Estados Unidos, nas últimas décadas nós prosperamos com uma economia guiada pelo consumo e pelo crédito, por meio da qual nós sustentamos uma classe média com a utilização de mais esteroides (crédito fácil, hipotecas subprime e construção civil) e menos criação de músculos (educação, criação de qualificação profissional e inovação). Isso nos lançou em um enorme buraco, e, agora, a única forma de sairmos dele é por meio de políticas novas e híbridas que misturem cortes de gastos, aumento de impostos, reforma cambial e investimentos em infraestrutura, educação, pesquisa e produção. Mas essa mistura não se constitui na agenda de nenhum dos dois partidos. Existem as seguintes possibilidades: ou os nossos dois partidos encontram uma maneira de colaborar em uma postura de centro em relação a essas novas políticas híbridas, ou um terceiro partido emergirá – ou então a nossa atual situação de estagnação e sofrimento só piorará.

Em um momento no qual o mundo experimenta tantas mudanças drásticas ao mesmo tempo – em uma situação que já é caracterizada por um alto nível de desemprego e por economias fracas –, a necessidade de que os Estados Unidos, o mais importante de todos os pilares, sejam sólidos como uma rocha é maior do que nunca. Se não nos organizarmos – algo que exigirá uma ação coletiva que normalmente está reservada para períodos de guerra –, nós não estaremos apenas prolongando uma crise norte-americana, mas também alimentando uma crise global.

Thomas L. Friedman (nascido em 20 de julho de 1953) é um jornalista norte-americano, atualmente editorialista do jornal The New York Times. Suas colunas, concentradas principalmente no tema relações internacionais, são publicadas nas quartas e sextas. Defende um compromisso de paz entre Israel e a Palestina, a modernização do mundo árabe, a globalização e a ecologia. Friedman já ganhou o prêmio Pulitzer em três ocasiões (1983, 1988 e2002).

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Dito e feito.

Apesar de tentativas anteriores, da aproximação com governistas e oposicionistas e de ter até recentemente sido ministro da Defesa, Nelson Jobim teria chances de ser candidato ao Palácio do Planalto pelo PMDB apenas em 2018, quando terá 72 anos de idade.

Isto é, se ele se eleger prefeito de Porto Alegre e depois, governador do Rio Grande do Sul. É essa avaliação do presidente da legenda, senador Valdir Raupp (RO), em entrevista aoUOL Notícias.

Para Raupp, Jobim “é uma liderança forte no partido, junto com o vice-presidente Michel Temer e o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral”, por ter “peso e nome”.

Mas buscar o Palácio do Planalto depende da vontade do agora ex-ministro, que deixou o cargo rompido com a presidente Dilma Rousseff, e do “sucesso nessas empreitadas em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul”. “Aí ele passa para a disputa da Presidência da República em 2018”, afirmou.

O presidente do PMDB rejeita a ideia de que colocar nomes do partido como presidenciáveis sirva também para pressionar Dilma a atender mais anseios da legenda, que deu a ela seu vice.

“Todo partido sonha em ter lideranças para disputar a Presidência. O PMDB ficou muito tempo sendo coadjuvante de outros partidos, mas já está na hora de pensar nisso”, disse Raupp. Ele afirmou não defender a candidatura de nenhum correligionário até o momento.

Jobim deixou o governo depois de uma série de comentários públicos que desagradaram Dilma. A presidente só o manteve no cargo por influência do antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.


Matéria de Maurício Savarese publicada em 16/08 último.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

E agora? Qual é a saída?

Dilma Rousseff só chegou a presidência da república do Brasil por obra e graça de Lula. Num momento crítico de seu mandato. No auge da crise do mensalão do PT, Lula convocou Dilma para a Casa Civil, encarrego-a da gestão dos programas de governo. Com isso teve tempo e tratou de salvar a sua pele da enrascada em que se metera.

Com autonomia e muita competência gerencial, Dilma colocou ordem na casa enquanto Lula, a salvo da herança maldita dos seus amigos aloprados dedicou-se a fazer o que mais gostava e sempre teve muita competência: política. A dupla transformou-se num sucesso de público e de crítica e a reeleição foi inevitável.

No momento que a gerentona Dilma foi transformada na presidenciável, fez-se necessário que ela aprendesse com o mestre a arte da política. O esforço foi e está sendo muito grande, mas infelizmente não é uma questão de esforço e sim de vocação.

Quando a competente gestora saiu de cena para a entrada da política esforçada (mas medíocre), os resultados não demoraram a aparecer. Ainda na campanha presidencial, com a chefe ausente, sua fiel escudeira na Casa Civil, Erenice Guerra, tratou de montar um esquema para enriquecer amigos e parentes via tráfico de influência.

Dilma está agora totalmente refém deste nefasto presidencialismo de coalizão que troca apoio de bancada por ministério de porteira fechada. A corrupção tomou conta da administração federal e esta colocando novamente em risco a própria governabilidade. O principal item da agenda de muitos ministros e da própria presidente nos dias atuais tem sido dar explicações ou nomear substitutos para os auxiliares demitidos e/ou presos por corrupção. Xeque.

Num dos últimos debates presidenciais do primeiro turno a então candidata Marina Silva perguntou aos demais concorrentes se eles assumiriam o compromisso público de liderar como presidente eleito(a) uma reforma política séria, as respostas tanto de Serra quanto de Dilma foram o silêncio e a evasiva.

Alguém vai ter que descascar esse abacaxi e pagar o preço. Dilma Rousseff pode entrar para a história, não só como a primeira mulher a tornar-se presidente do Brasil mas, principalmente, por ter tido a coragem de fazer as reformas políticas e eleitorais que os seus antecessores não tiveram.

Este é o momento e esta é a oportunidade.

José Antonio Martins Prestes

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A engenharia política de Nelson Jobim e do PMDB

Nelson Jobim transformou sua saída do Ministério da Defesa num fato político importante e não o faria se não tivesse boas razões para isso. Político experiente que é, sabe que o momento de Dilma é de muita fragilidade. Poderia muito bem tê-la poupado deste desgaste.

Seu partido, o velho PMDB, é o maior e mais estruturado partido político do país. Contraditóriamente tem ocupado apenas papéis coadjuvantes no cenário nacional nos últimos 16 anos. Muitos dos seus caciques não estão satisfeitos com isso.

É a história que transforma heróis em traidores ou traidores em heróis. Em 2014 saberemos qual será o seu veredectum.

José Antonio Martins Prestes