sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Dilma ou Serra?

Para uma jovem democracia como a a brasileira, o processo eleitoral que termina no domingo próximo, dia 31 de outubro é, por si só, uma grande vitória. Não tivemos, á princípio, nenhum sobressalto na economia, que parece, finalmente, ter vida própria. Também no aspecto social, tudo permaneceu sem nenhuma turbulência maior.
É verdade que não existe muita diferença ideológica entre os dois candidatos que ficaram para o segundo turno e suas plataformas e programas, são muito mais parecidos que diferentes. Isso certamente ajudou a manter a estabilidade durante o processo.
Mas afinal o que há de diferente entre Dilma Roussef e José Serra?
Dilma Roussef, importada do PDT, é uma aposta pessoal do presidente Lula, portanto está dentro de um projeto de poder idealizado por ele e por um pequeno grupo de amigos (inclusive a própria Dilma) que tem duração bem maior do que os oito anos em que ele permanece no poder, que pretende levar o Brasil ao topo do ranquing das potências mundiais nos próximos 10 ou 15 anos. Eles sabem que o Brasil tem muitos requisitos para estar entre a 4ª ou 5ª nação mais rica do planeta até 2025 e querem ser os condutores deste processo e assim entrar para a história.
O que Lula, Dilma e companhia limitada também sabem é que esse crescimento econômico precisa ser suportado por um desenvolvimento social. A conclusão é simples: não é possível chegar e se manter na quarta ou quinta posição dos países mais ricos do planeta, sendo a 80ª nação do planeta em desigualdade social, daí a necessidade de investimento pesado em programas sociais.
Lula sabe que, para quem tem fome, o que interessa é um prato de comida e não uma um lápis, um caderno ou uma escola. Daí a "malandragem": só ganha um prato de comida quem for á escola. Ainda dentro dessa "malandragem" está a ideia de que o volume de recursos do programa bolsa família destinado ás regiões mais pobres do país, alavanca suas economias. Investimentos estratégicos em infra-estrutura nestas regiões poderão fazer com que, num período muito curto, essas regiões deixem de ser dependentes do assistencialismo governamental e passem a contribuir efetivamente com o desenvolvimento da nação.
José Serra e sua turma sabem de tudo isso e querem chegar ao mesmo resultado, porém, por outros caminhos. Na visão dos Tucanos e dos Democratas o Brasil também é a bola da vez e eles querem estar em campo participando deste jogo vitorioso, porém, tem pouca ou nenhuma sensibilidade social e preferem apostar nas elites e nas classes médias como motores deste desenvolvimento econômico.
No campo externo, Lula e sua Turma, leia-se Dilma, aposta no relacionamento comercial com os países em desenvolvimento enquanto os Tucanos não sabem que existem outros países no mundo econômico além dos EUA. Isso faz muita diferença, se o Brasil tivesse a mesma dependência dos Estados Unidos em 2008 que tinha em 2000, nós estaríamos em seríssimas dificuldades agora.
Os movimentos sociais também são outro fator que diferenciam a turma do Lula e dos Tucanos, a primeira prefere a cooptação enquanto a segunda prefere o confronto.
Bem, é só uma questão de escolha.
José Antonio Martins Prestes

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A mídia e as eleições presidenciais de 2010 (primeiro turno)


A cobertura jornalística do processo eleitoral no primeiro turno das eleições presidenciais de 2010, assim como a divulgação diária de pesquisas de intenção de voto realizadas pelos institutos de pesquisa dentro dessa mesma cobertura, se constituiu em fator fundamental na decisão de parte significativa dos eleitores brasileiros, por isso, mais uma vez influiu significativamente no resultado das urnas. A verdade jornalística tem sido fator decisivo no resultados das eleições brasileiras desde o processo de redemocratização do país - que se iniciou em 1985 - e tem conferido ás elites políticas, sustentadas pelas elites econômicas e suportadas pelas elites militares, a manutenção no e do poder. A inteligência na construção e na manipulação da informação como ferramenta estratégica de poder substituiu gradativa e eficazmente a força bruta dos fuzis, dos calabouços e das torturas, não antes desses métodos terem cumprido o seu papel no regime autoritário.
A definição da pauta, a escolha dos entrevistados e dos entrevistadores, a edição das matérias associados a uma infinidade de outros recursos técnicos e cênicos, utilizados especialmente pela televisão, interferem diretamente na interpretação do expectador, de forma a direcioná-lo para determinadas conclusões, a favor ou contra um determinado candidato ou a uma determinada proposta ou postura política. Numa disputa presidencial como a brasileira os índices de aceitação e de rejeição dos candidatos estão muito suscetíveis a forma com que os grandes veículos de comunicação redigem, exibem e comentam suas matérias.
O caso do seqüestro do empresário Abílio Diniz, do grupo pão de açúcar em 1989 definiu o resultado da eleição daquele ano em favor do candidato Fernando Collor de Mello que disputava o segundo turno com Luiz Inácio Lula da Silva (o favorito até então). O caso do suposto tráfico de influência na chefia da casa civil, praticado pelos filhos da ministra Erenice Guerra, garantiu o segundo turno das eleições presidenciais deste ano entre a ex-ministra Dilma Roussef e o ex-governador de São Paulo José Serra. Os fatos em si têm muito menos importância do que as versões e as repercuções que a eles são dados pela imprensa. Guardado o devido afastamento do determinismo, do generalismo e do extremismo, estou argumentando aqui, que em disputas diretas, muito equilibradas, e em momentos específicos e estratégicos, o editorial de um tele-jornal como o jornal nacional da rede globo, pode definir o resultado de uma eleição presidencial.
Antes de colocar a “cobertura jornalística” e seus agentes num mesmo saco, é preciso separar os veículos de comunicação onde esses jornalistas atuam e fazem a divulgação dessa cobertura, de acordo com algumas características que os diferem; seja pelo público que atinge, seja pelo meio material que usa, seja pelo método de produção e divulgação da informação, seja pelo nível de independência que possui ou pelo tipo de regulamentação que obedecem e assim por diante.
Desta forma dividi os veículos de comunicação em três grupos: O rádio e a televisão, a imprensa escrita e a internet.
O rádio e a televisão (aberta) são veículos de comunicação de massa, operados historicamente através de concessões públicas por oligopólios familiares ou empresariais regionais, com claros interesses econômicos e políticos. Esses veículos, isoladamente ou em conjunto, atingem praticamente a totalidade das famílias brasileiras e são extremamente importantes na formação de opinião das pessoas de baixa renda e pouca escolaridade. Em função da restrição do tempo e do público alvo, as informações são muito simplificadas e condensadas. A metodologia utilizada para dar credibilidade instantânea ás noticias veiculadas pela programação jornalística destes veículos está na utilização da boa imagem o do conceito positivo construídos pelos próprios veículos, dos seus apresentadores e comentaristas. Por isso é fundamental que eles sejam revestidos de uma aura quase mítica.
A imprensa escrita, especialmente os grandes jornais diários e revistas semanais, atingem um público menor e mais “seleto”, com renda e escolaridade média e alta. Essas pessoas são mais criticas diante das informações que recebem dos veículos de comunicação e dos processos político e eleitoral, por isso, tomam posições e decisões somente depois de um processo de reflexão e/ou por interesse direto no resultado do pleito. Como são pessoas que possuem posição de destaque nos meios em que atuam, uns mais outros menos, acabam operando como formadores de opinião e influenciando o voto de pessoas que circulam em suas zonas de influência.
Uma característica importante dos jornais e revistas é que esses veículos se detêm mais detalhadamente no jogo de interesses das elites, produzindo subsídios para que os indivíduos dessa classe se posicionem e/ou atuem no processo eleitoral de acordo com suas convicções e interesses.
A internet aparece como uma terceira categoria de veículo de comunicação cuja especificidade está baseada em dois fatores peculiares: a interatividade e a desregulamentação que conferem a ela um caráter anárquico que a distingue dos demais veículos. Enquanto as rádios, televisões, jornais e revistas estão engessados por suas direções editoriais, pelos interesses de seus proprietários e anunciantes por regras legais, a internet goza de maior liberdade crítica diante do processo político eleitoral.
É fato que os proprietários de veículos da chamada grande imprensa estão ocupando, cada vês mais, espaços na internet com seus portais de notícias e de entretenimento, tentando, estrategicamente, manter a hegemonia na produção, na manipulação e na divulgação da informação. Ainda assim existem sites e blogs independentes, além de uma infinidade de redes sociais subvertendo este processo de domínio da informação e do conhecimento, garantindo á internet uma relativa, porém, substancial independência.
Num país de 190 milhões de pessoas, com dimensões continentais, nível de escolaridade baixa e um sistema educacional precário; recém saído de uma ditadura militar que durou mais de vinte anos, com pouquíssima tradição democrática, o rádio e a televisão, assumem uma importância fundamental no dia-a-dia das pessoas como fonte de entretenimento e de informação por um lado, e como elemento de integração e sentimento de pertencimento por outro, isso não é pouca coisa. Como uma estrutura estruturada para integrar definitivamente o Brasil, os diversos governos e regimes de nossa história recente utilizaram essas ferramentas para consolidar uma elite política, econômica e militar no poder, distribuindo estrategicamente as concessões desses veículos para aliados enquanto combateu (e combate), qualquer iniciativa que aponta para a criação de rádios ou televisões independentes.
Neste contexto, as pesquisas de intenção de voto cumprem um duplo papel, um nobre, outro pobre. O nobre: a função de informar o público sobre as tendências dos votos dos eleitores no momento da realização da pesquisa. O pobre: direciona o voto daqueles que acreditam ser importante votar no candidato vencedor. Na lógica do eleitor de baixa renda e baixa escolaridade, dar o voto ao vencedor, não só o credencia a pedir, mas especialmente, a receber os favores destes. Portanto, mais que informar, as pesquisas direcionam o voto de uma parcela importante do eleitorado.
Sem fazer julgamento de valor e considerando papel e a importância da imprensa e da divulgação de resultados de pesquisas de intenção de votos para o nosso processo político e eleitoral, considero que ambos estão sujeitos facilmente á manipulação e são utilizados constantemente pelas forças políticas dominantes para direcionar o voto de uma parcela do eleitorado, de forma a atingir objetivos específicos, como nos dois exemplos dados anteriormente.
De certa forma considero que minha abordagem ao tema vai de encontro ao conceito de Adorno e Horkheimer de que construímos e operamos um sistema midiático que direciona a vontade e as escolhas da maioria, atuando tecnicamente na vontade alienada de uma “minoria”.
Outro ponto convergente me parece ser o de que os veículos de comunicação de massa são, antes de mais nada, veículos de massificação da indústria cultural, que cumprem o papel da alienação a serviço de um projeto de dominação.
Em relação a Jürgen Habermas procurei demonstrar que as concessões das freqüências de rádio e dos canais de televisão no Brasil, para famílias e grupos políticos apoiadores dos regimes, vão de encontro ao seu conceito de refeudalização da nossa sociedade. Neste contexto o econômico e o político se fundem e se confundem no seu conceito de razão instrumental.
O processo de midiatização da política tem contribuído para que haja por parte dos partidos políticos uma preocupação cada vez maior com a embalagem e as técnicas de venda dos seus candidatos como produtos, do que com planos de governos, propostas programáticas ou identidade ideológica. Neste sentido vejo a identificação do texto de W. Benjamin ao dizer que o político profissional representa a si mesmo diante dos veículos de comunicação de massa.