
Ao estudar a história, das grandes navegações que tiveram origem na Europa ocidental na segunda metade do século XV até os dias atuais, constatamos que, depois da chegada dos Portugueses a Índia margeando toda costa africana pelos oceanos Atlântico e Índico e da descoberta da América pelos navegadores espanhóis, teve início o processo de globalização dos povos do planeta com uma inegável supremacia dos navegadores sobre os nativos africanos e americanos, classificados por eles como civilizações atrasadas. Apesar do cunho comercial atribuído aos objetivos dessas navegações, dentro do contexto de um capitalismo comercial ainda insipiente, mas extremamente agressivo, são inúmeros os casos que comprovam que, em relação à África e a América, os portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses entre outros povos navegantes, tinham pouco ou nenhum interesse em estabelecer relações comerciais com os locais. Logo de início, estabeleceu-se uma relação de dominação e de exploração, baseada numa idéia de superioridade racial. A violência voluntária e a disseminação involuntária de doenças, para as quais os nativos não possuíam nenhuma imunidade, provocaram durante o período dos primeiros contatos, um verdadeiro genocídio.
O Brasil, até então, não existia, nem como nação nem como povo, apesar do tratado de Tordesilhas realizado entre Portugal e Espanha já ter definido, mesmo antes da chegada dos primeiros portugueses na América um critério de divisão das terras descobertas. O que existia era apenas a idéia de que havia um novo e estranho território a ser ocupado e explorado pelos reinos português e espanhol, de acordo com suas conveniências e prioridades e que esse território era ocupado por um povo primitivo, que sequer vestiam roupas, possuíam alma ou conheciam os Deuses e Santos da Igreja, portanto, pouco se diferenciavam de animais. Do ponto de vista dos conquistadores essa superioridade racial realmente existiu, pois, mesmo com pouquíssimos homens e numa terra totalmente desconhecida e distante, o sistema de dominação e de exploração se efetivou e durou pelo menos 350 anos.
O que podemos constatar com essa análise histórica é que, tanto a globalização quanto o capitalismo, além de terem exatamente a mesma origem, possuíam os mesmos objetivos: atender uma demanda crescente na Europa por especiarias e metais preciosos e concentrar riqueza. Ao longo desse processo histórico esses sistemas irmãos passaram por diversas transformações, adaptações e modernizações para se adequarem as novas circunstâncias, fortalecendo-se mútua e continuamente. Na essência do capitalismo como um sistema econômico nascido numa Europa de carências e conflitos está a necessidade constante da produção de excedente, que tem a sua origem na necessidade de sobrevivência dos povos que, por questões históricas, geográficas ou climáticas, precisavam acumular sempre que houvesse a oportunidade para isso, fosse aproveitando os períodos de relativa fartura ou pilhando seus vizinhos. Enquanto escassez, guerras e conflitos faziam parte da realidade européia, especialmente dos países mais ao norte do continente, no continente americano, os povos nativos viviam do extrativismo vegetal, da caça e da pesca. Quando enfrentavam períodos de escassez, simplesmente migravam para áreas mais favoráveis. Portanto não tinham o espírito da acumulação.
Os séculos XV e XVI também marcaram o fim do feudalismo Europeu como um sistema de produção econômico e de controle social baseados nos senhores feudais e numa aristocracia eminentemente rural. A constituição e o fortalecimento dos estados-nação europeus deram início a um longo processo de concentração e de desconcentração de poder. Ao mesmo tempo em que os senhores feudais se fortaleciam política e militarmente em torno de um núcleo real, nasciam as cidades e com elas os operários livres - vindos ou expulsos dos feudos - os artesãos e os comerciantes que ao enriquecerem, deram origem a uma nova classe econômica e social: a burguesia. Essa burguesia, na medida em que acumulava riqueza, explorando a força de trabalho livre numa produção pré-industrial ou no comércio, também desejava influir no poder político.
Ainda neste processo de construção e desconstrução do poder ocorrido no final do feudalismo, na consolidação dos estados-nações europeus e da consolidação da burguesia, ocorria também o processo de perda da hegemonia da igreja nos campos espiritual, do conhecimento e da política. O iluminismo e o protestantismo nascentes, além de colocarem em cheque as verdades, os conceitos e os valores da igreja católica, introduziam no cenário europeu dos séculos XVI e XVII, o racionalismo científico. Se o que legitimava a autoridade e o poder dos reis, rainhas e príncipes era igreja através do controle político e espiritual que exercia sobre a sociedade, o que legitimava o poder da burguesia emergente era a concentração do poder econômico, o racionalismo científico e uma interpretação independente das escrituras sagradas.
O embate que ocorreu a partir desse conflito dividiu a Europa entre países mais conservadores (como Itália, Espanha e Portugal, que mantiveram-se atrelados a igreja católica e a seus valores) e países progressistas (onde o iluminismo, o racionalismo e o protestantismo encontraram um ambiente social e político mais favorável para o seu desenvolvimento como na Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Suíça entre outros). Neste segundo grupo de países a burguesia encontrou um ambiente muito mais favorável para o seu desenvolvimento. Essa divisão foi determinante no processo de colonização das Américas. Enquanto nas Américas espanhola e portuguesa a colonização se deu unicamente com o sentido exploratório, nos EUA e no Canadá, regiões colonizadas basicamente pela Inglaterra e pela França, o sentido da colonização era o da ocupação das novas terras.
Outro diferencial importantíssimo na composição e na formação dos povos das Américas do norte e latina foi o fato de que, boa parte da ocupação da América do norte se deu por dissidentes políticos e religiosos dos países centrais, enquanto que, para as colônias portuguesas e espanholas eram enviados muitos de seus criminosos comuns, como forma de punição.
O domínio português na costa africana supriu a necessidade de mão-de-obra para a produção de cana-de-açúcar e posteriormente de café. Enquanto no Brasil e na maioria dos países latino-americanos a força motriz da produção eram os escravos negros, na América do norte, apesar de existirem escravos negros nas colônias agrícolas do sul, a principal força de trabalho era a mão-de-obra branca livre.
O processo histórico a partir das grandes navegações se mundializou. Todos os continentes estavam inseridos no sistema capitalista de produção, distribuição e comercialização de mercadorias. O que precisamos ressaltar é que mesmo que todos os continentes estivessem inseridos nesse processo histórico, ele não foi homogêneo nem cronologicamente nem geograficamente. Outro ponto a ser ressaltado é que, ao mesmo tempo em que alguns povos “evoluíram” melhorando sua qualidade de vida e os padrões de consumo, muitos outros foram barbaramente escravizados, torturados, submetidos ás piores condições de vida e de trabalho, além daqueles que foram violentamente assassinados ou morreram. Civilizações inteiras com seus costumes, crenças e desenvolvimento social, econômico e científico foram exterminadas do planeta como os Maias, os Astecas e os Incas.
O centro de convergência desse capitalismo colonial, comercial e mercantilista era a Europa. A burguesia européia foi a grande propulsora e beneficiária desse processo e se fortaleceu a ponto de provocar enormes rupturas nas estruturas de poder de diversos países no final do século XVIII e XIX.
Diante da importância, da extensão, da complexidade e da profundidade das mudanças que a expansão marítima européia representou para o mundo, podemos afirmar que esse não foi somente um processo revolucionário por si só, mas uma espécie de gestora de uma série de importantes transformações que ocorreram em todas as partes do globo e continuam a ocorrer até os nossos dias. Em maior ou menor escala, todos os povos do planeta sentiram ou ainda sentem os efeitos daquelas transformações e de seus desdobramentos.
A Revolução Francesa, a revolução Industrial e a Independência Americana, todas ocorridas na segunda metade do século XVIII e início do século XIX, abalaram o mundo globalizado. Essas revoluções burguesas, frutos de um processo de secularização gestado nas filosofias iluminista e no racionalismo científico, mudaram os eixos geopolíticos e geoeconômicos do planeta. O aparecimento da república como uma nova forma de estruturar o poder “legitimado” pela própria sociedade e não mais o poder real legitimada pela igreja e o surgimento do capitalismo industrial, colocaram definitivamente a burguesia no centro do poder nos países (agora) mais importantes e influentes da Europa e da América, a França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América. Na periferia destes países estavam todos os outros que insistiam nos velhos paradigmas do poder real, da influência marcante da igreja católica e da manutenção do sistema de exploração colonial baseado no uso da mão-de-obra escrava, entre eles Portugal.
O Brasil colonial simplesmente cumpriu o seu papel como uma colônia de exploração até 1808, quer na produção extrativista vegetal ou mineral ou na monocultura da cana-de-açúcar voltados exclusivamente para a metrópole, usando os escravos negros como força produtora. Pouquíssimos foram os movimentos de insurgência contra o sistema colonial até então, os que ocorreram foram violenta e exemplarmente punidos. O caso de maior destaque foi a inconfidência mineira, que além de se restringir aos interesses de uma elite local de Minas Gerais, não tinha sequer um caráter nacionalista. Mas os ventos revolucionários do norte trouxeram para o Brasil a família real portuguesa, que instalaram aqui o centro decisório do reino. Ao retornar para Portugal, a colônia já não era mais a mesma, sua pequena elite local, influenciada pelos valores iluministas, não mais aceitavam a simples condição colonial e exigiram do príncipe regente que rompesse os laços de dependência com a metrópole.
A independência formal proclamada em 1822 pelo príncipe regente D. Pedro I, não se traduziu numa independência real do Brasil em relação a Europa: nem politicamente, pois o imperador era o herdeiro legítimo do trono português; nem economicamente, pois a economia Brasileira continuava dependente da produção de um único produto agrícola voltado para a exportação, baseada em grandes latifúndios e na mão-de-obra escrava dos negros. Era o fim do colonialismo e o início do neo colonialismo.
Nesse período do Brasil império, que perpassou praticamente o século XIX, ocorreram pelo menos duas mudanças internas muito significativas: a decadência da cana-de-açúcar (produzida predominantemente no nordeste e a ascensão do café produzido no sudeste), que transferiu o eixo econômico para o centro sul do país e o início da formação de uma burguesia nacional, originária das oligarquias cafeeiras, dos pequenos comerciantes urbanos, dos funcionários públicos, dos profissionais liberais e de militares de alta patente. Lembrando que o reino português já havia transferido a capital da colônia, de Salvador para o Rio de Janeiro em 1763, com o objetivo de melhor controlar a produção e o envio do ouro para a Europa, produzido em Minas Gerais.
Inspirada nas filosofias iluministas (positivas), nos valores republicanos e no exemplo da independência dos Estados Unidos e embalada na crise econômica e política gerada pela abolição dos escravos e pela desvalorização do café brasileiro no mercado internacional, a elite brasileira derrubou o império e instaurou a República dos Estados Unidos do Brasil.
Enquanto na Europa protestante a evolução tecnológica, econômica e social, produzidas pela revolução industrial, provocava um rápido processo de urbanização e substituía a manufatura pela maquinaria, secularizava-se e consolidava o capitalismo industrial; o Brasil do final do século XIX e início do século XX (apesar da abolição da escravatura, da proclamação da república, da imigração de trabalhadores europeus e japoneses), permanecia como um país rural, agrícola monocultor, fortemente influenciado pela igreja católica e oligárquico.
Para os capitalistas industriais europeus, a produção e o comércio de mercadorias em larga escala barateavam os seus preços e possibilitava o consumo em camadas cada vez maiores da sociedade em meio a um rápido processo de urbanização e de industrialização baseado na crescente divisão social do trabalho. Esse sistema se retroalimentava continuamente. A burguesia havia descoberto aí uma fórmula perfeita de produzir e concentrar riqueza, baseada no controle dos meios de produção e na exploração da classe trabalhadora, seja explorando a sua força de trabalho ou expropriando sua renda através do consumo necessário á sua própria subsistência. O trabalhador, na medida em que se especializava numa determinada função ou profissão, tornava-se cada vez mais dependente daquilo que não sabia ou não podia produzir.
O capitalismo industrial, na medida em que enriquecia a Burguesia e tornava a classe trabalhadora mais especializada e dependente, também precisava expandir suas fontes de matérias-primas, energéticas e seus mercados; que gerava mais necessidades de mão-de-obra, matérias-primas, fontes energéticas, mercados e assim continuamente. A voracidade do capitalismo industrial do final do século XIX e início do século XX provocou uma série de conflitos localizados entre várias nações européias que contribuíram muito para a eclosão das duas grandes guerras mundiais do século XX.
Os conflitos europeus desse período produziram um grande movimento migratório da Europa para as Américas. Desembarcaram no Brasil milhares de italianos, alemães, poloneses, eslavos, russos, ucranianos, portugueses, espanhóis. Esses imigrantes tiveram papéis importantes na sociedade brasileira. Do ponto de vista racial promoveram um embranquecimento da população (em especial as do centro sul do país). Na cultura contribuíram com suas danças, músicas e culinária. Na economia, além de substituírem a mão-de-obra escrava dos negros nas lavouras, contribuíram na construção das cidades e das indústrias, das quais se constituíram na sua principal força de trabalho. Na política ocuparam pelo menos dois papéis importantes: os imigrantes que enriqueceram no Brasil deram uma nova cara á nascente Burguesia brasileira e os que permaneceram como trabalhadores, constituíram a classe operária, organizaram-se em sindicatos e, tal como na Europa, reproduziram suas lutas por melhores condições de trabalho e de vida.
Os movimentos operários europeus, gestados nas teorias socialistas e anarquistas, ao ocuparem espaços políticos terminaram por disseminar os ideais comunistas para outros continentes, além de ter produzido a Revolução Russa na Europa oriental. Os discursos de proteção dos interesses nacionais junto a defesa das classes trabalhadoras locais, contra os “males” do imperialismo capitalista, deram origem a regimes autoritários com vieses socialistas liderados por personalidades carismáticas como Lennin/Stalin na Rússia, Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália e Getúlio Vargas no Brasil.
O período brasileiro conhecido como primeira república, que teve origem na sua proclamação em 1889 e seu final em 1930 com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, através de um golpe de estado, também marcou, entre outras coisas, a transição de um Brasil rural para um Brasil que se urbanizava, de um país eminentemente agrícola monocultor e exportador de café, para um país que começava a se industrializar, a diversificar e a modernizar sua produção agrícola (ex: ciclo da borracha). Porém, a mais significativa das transformações ocorridas nesse período foi a transição de um país rural, neocolonial e monopolista para um país que se urbanizava, se industrializava e se inseria definitivamente no capitalismo globalizado, mesmo que numa posição periférica e dependente
Por essas razões o período da primeira república foi também o período de agonia das oligarquias rurais e do nascimento efetivo de uma burguesia urbana, industrial e comercial, especialmente nos estado do centro-sul do país. Se até o advento da imigração européia para o Brasil e o início do nosso processo de urbanização e de industrialização, a elite econômica e política brasileira que era formada basicamente pelas oligarquias rurais desconsideravam totalmente as demandas sociais, especialmente as condições precárias em que se encontravam os negros (libertos e abandonados á própria sorte), com a formação de nossa burguesia como uma nova classe emergente nascia também uma classe operária que começava a se organizar e ganhar força política.
Foi neste período que se diversificou a mistura de raças na formação do povo brasileiro. Formado inicialmente por índios, portugueses e negros, agora chegavam os italianos, espanhóis, poloneses, eslavos, russos e japoneses, contribuindo com suas culturas e costumes.
A primeira guerra mundial (1914-1918) foi um marco importante na história do capitalismo, ao mesmo tempo em que evidenciou a crise do capitalismo Europeu, mostrou a ascensão do capitalismo norte-americano e consolidou o seu novo formato: o capitalismo financeiro (união do capital industrial com o capital monetário).
Como o palco do conflito era a Europa, os Estados Unidos lucraram com o fornecimento de grandes quantidades de alimentos e armas (e posteriormente financiamentos) para os países da Tríplice Entente (Império Britânico, França e Império Russo). Com a saída da Rússia da Tríplice Entente, em 1917, em função da Revolução Bolchevique e do ataque de navios americanos por submarinos alemães, os Estados Unidos se viram obrigados a entrar diretamente no conflito, entre outros motivos, para garantir a vitória dos seus aliados e assim garantir o recebimento dos seus ativos.
A recuperação gradativa da economia européia no pós-guerra diminuiu enormemente o consumo de alimentos e produtos industrializados americanos pelos europeus. A queda nas vendas provocou uma crise nas empresas desvalorizando rapidamente as suas ações em bolsa. A corrida em massa dos acionistas americanos para vender suas ações antes que elas caíssem ainda mais, provocou a quebra da bolsa de Nova York em 1929 e colocou os Estados Unidos numa crise econômica e social sem precedentes.
A quebra da bolsa de Nova York afetou todos os compradores do nosso principal produto de exportação e colocou o Brasil numa grave crise econômica e política que derrubou as oligarquias cafeeiras que se alternavam na presidência da república desde 1912 (política do café com leite) e criou as condições para a ascensão de Getúlio Vargas á presidência da república. O café que respondia por dois terços das exportações brasileiras no final dos anos vinte, mesmo antes da crise de 1929 já estava em crise, pois havia uma superprodução não absorvida pelo mercado internacional.
Havia se construído então no Brasil, as condições econômicas, sociais e políticas necessárias para acelerar o seu processo de urbanização, de industrialização e de transferência do poder político oligárquico agrário para um político carismático, populista e nacionalista, pois havia um vazio em nosso sistema político. Getúlio Vargas era de uma família de estancieiros gaúchos (fazendeiros) e havia sido ministro da fazenda de Washington Luiz, o presidente deposto por ele em 1930.
O surgimento de uma burguesia nacional e a mistura de raças e culturas trazidas de diversos pontos do mundo deu o tom da nova composição da sociedade brasileira. Embora todo esse processo tenha significado um rearranjo do poder entre os velhos e novos membros de uma elite nacional, havia a partir deste ponto, um novo elemento a ser considerado e por vezes ouvido, o povo brasileiro.
Numa Europa (pós primeira guerra), dentro do contexto de grandes dificuldades econômicas, criaram-se as condições para o surgimento de diversas ditaduras baseadas exatamente em figuras carismáticas, populistas e nacionalistas. Grandes oradores que apelavam para argumentos como pureza étnica ou superioridade racial, nacionalismo e socialismo para unir o seu “povo” contra os inimigos internos e externos. Neste contexto surgiu Adolf Hitler na Alemanha, Benito Mussoline na Itália, Vlademir Lennin e Josef Stalin na Rússia, Oliveira Salazar em Portugal e Francisco Franco na Espanha, entre outros. Esses homens e essas formas de pensamento conduziram a Europa novamente á guerra pela segunda vez no século XX.
Inspirado nos regimes nazista e fascista, em seus valores e em seus líderes, Getúlio Vargas fecha o congresso nacional em 1937 e instaura o seu regime ditatorial conhecido como Estado Novo. Assim como na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussoline, Getúlio encontrou respaldo para o seu ato em boa parcela de todas as classes sociais brasileiras. As leis trabalhistas e sindicais impostas por ele conferiam-lhe grande apoio por parte dos trabalhadores e minavam a força do partido comunista junto aos operários. A defesa da indústria nacional e da reserva de setores econômicos nas mãos de empresas brasileiras agradava boa parte das elites locais. Hora com habilidade política, hora com mão-de-ferro, Getúlio conduziu o Estado Novo até 1945.
O Brasil de Getúlio Vargas, que adotou para a produção industrial nacional as normas técnicas alemãs e como leis trabalhistas e sindicais uma cópia das leis italianas, preferiu aliar-se aos Estados Unidos na 2ª Guerra mundial em troca da doação pelos americanos de uma indústria sidcanos de uma insroca da doaçdicais italianas constituiçerúrgica (a C.S.N. - Companhia Siderúrgica Nacional foi instalada em Volta Redonda- RJ e começou a operar em 1946). No acordo feito durante a guerra, a Companhia Siderúrgica Nacional deveria produzir aço para a indústria americana durante o conflito e, nos tempos de paz, serviria para alavancar o desenvolvimento industrial brasileiro.
A vitória dos aliados na guerra significou a vitória da democracia e do liberalismo econômico. O mundo foi dividido logo em seguida em dois blocos pelos seus principais protagonistas. De um lado estava a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas junto a vários países do leste europeu, na defesa do comunismo e do outro, estavam os Estados Unidos da América e seus principais aliados, defensores dos valores capitalistas, entre eles a Inglaterra, a França. Era o início da Guerra Fria. Neste contexto, Getúlio Vargas indica seu sucessor Eurico Gaspar Dutra e afasta-se da vida pública até 1950.
A economia, a política, a sociedade e a cultura brasileira a partir daí girará em torno dos Estados Unidos e de seus princípios, num cenário de dependência e submissão econômica e cultural. Sob o lema: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” a burguesia brasileira coloca-se numa posição subalterna a burguesia americana, copiando seu comportamento e defendendo seus valores. A música e o cinema americanos sufocam nossa produção cultural. O modo de vida americano não só era almejado como copiado pela nossa sociedade, apesar da resistência de poucos.
A interferência americana no Brasil na segunda metade do século XX foi marcante, além do massacre cultural, as multinacionais norte americanas (e de seus aliados) invadiram nosso precário parque industrial e ditaram as regras e os destinos do nosso desenvolvimento econômico e social.
Apesar do Brasil ter-se alinhado aos Estados Unidos e ao mundo capitalista no campo econômico e ideológico, no campo político nossa democracia se mostrou frágil e intermitente, poucos foram os períodos de relativa democracia na história republicana do país. Mesmo em períodos em que civis foram eleitos “democraticamente” para ocuparem a presidência da república, as forças armadas tutelaram nossa sociedade e intervieram na política impondo sua vontade, sempre que entendiam necessário. Foi assim da proclamação da república até o governo de Fernando Henrique Cardoso.
No campo social nosso capitalismo dependente e nossa democracia capenga produziram graves distorções, mesmo sendo um país de grandes riquezas naturais e de desenvolvimento industrial expressivo, o Brasil figurava até a última virada de século como um dos países mais injustos do planeta em função da péssima distribuição de renda e de um sistema educacional restritivo e seletivo.
A cooptação de políticos e de militares brasileiros por agentes americanos minaram sistematicamente todas as tentativas de se construir no Brasil uma política de desenvolvimento econômico e social nacional e independente. A crise que terminou com o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e o golpe militar de 1964 tiveram a interferência velada, mas decisiva do Departamento de Estado norte americano.
Com a adoção do socialismo de mercado em 1978 e do capitalismo convencional em 1997 pela República Popular da China, a queda do muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991, precarizaram-se as esperanças para aqueles que ainda as tinham, de que o comunismo ou o socialismo pudessem representar uma alternativa viável ao capitalismo.
No último quarto do século XX a hegemonia política, militar, econômica, cultural e ideológica dos Estados Unidos da América e de seus principais aliados no campo capitalista (Inglaterra, França e Japão), e o colapso da União Soviética, colocou um fim na chamada guerra fria e no conflito ideológico que a sustentava. Porém, as intervenções políticas, comerciais, econômicas e militares dos Estados Unidos (e seus aliados) no oriente médio, contornadas por fatores históricos e religiosos, fizeram brotar naquela região um forte sentimento anti-americano/ocidental/capitalista, que culminou com o ataque (terrorista) aéreo ás torres gêmeas de Nova York e ao Pentágono em 11 de setembro de 2001. Foi a primeira vez que o território continental americano foi atacado por uma força estrangeira.
Iniciou-se á partir destes ataques, uma incursão militar dos Estados Unidos aos países que supostamente abrigavam essas forças. As invasões ao Iraque e ao Afeganistão envolveram os americanos diretamente em guerras não convencionais que lhes custaram milhares de vidas e bilhões de dólares, desestabilizaram totalmente os estados e as sociedades locais e fizeram crescer o sentimento de ódio e de revolta de muçulmanos e árabes em relação aos Estados Unidos e a seus cidadãos.
O fracasso da guerra contra o terror e a crise econômica e financeira que se abateu sobre os Estados Unidos no início do século XXI parecem estabelecer um marco histórico na hegemonia dos Estados Unidos.
A crise econômica de 2008/2009 abalou as bases de sustentação do pensamento liberal de não intervenção estatal na economia, várias instituições financeiras e conglomerados industriais tiveram que ser socorridos por estados capitalistas ou foram estatizados na América do norte e na Europa. A Alemanha, a Áustria, a França, a Itália e os países baixos anunciaram um pacote de mais de um trilhão de euros para salvar os seus sistemas financeiros do descrédito absoluto e do colapso. No Brasil, grandes empresas como a Sadia, a Aracruz e a Votorantim anunciaram prejuízos bilionários.
A super expansão do capitalismo a partir dos anos 80, quando os mercados financeiros começaram a ser globalizados, baseada na filosofia de auto- regulação, chamada por Ronald Reagan de “magia dos livres mercados”, provocou uma expansão irresponsável do consumo e do crédito, especialmente nos Estados Unidos. A globalização financeira permitiu aos Estados Unidos consumir muito mais do que produzia provocando um déficit em sua conta corrente. Esse déficit foi bancado pela poupança dos países sob sua esfera de domínio e de influência. A quebra desse sistema em 2008 é apontada como a principal causa da crise que continua a provocar estragos na economia americana e em vários países da zona do euro: Grécia, Espanha, Itália, Portugal, Irlanda, entre outros.
A falência da economia planificada na China levou os seus dirigentes a adotarem as regras do jogo capitalistas. A China comunista iniciou o século XXI como a segunda maior economia do planeta. Atualmente 70 % da economia chinesa é privada e cresce a taxas próximas de 10% ao ano. A China possui a maior reserva de moeda estrangeira do planeta e possui um mercado interno (em grande expansão) de 1,35 bilhões de habitantes.
Acompanhando a trajetória de crescimento econômico da China, o Brasil, á partir de 2002, intensificou seus negócios com o gigante asiático exportando basicamente commodities (produtos básicos de amplo consumo como soja ou minério de ferro) e importando produtos industrializados daquele país. Atualmente a China, que caminha para se tornar a maior economia do planeta antes de 2020 é o principal parceiro comercial do Brasil.
Neste início de século o centro de convergência do capitalismo mundial parece estar migrando do ocidente para o oriente, especialmente por causa da ascensão da China e da Índia no ranking das maiores economias do planeta. O Brasil, percebendo essa tendência, tem melhorado as relações comerciais com esses países e com seus vizinhos na América Latina, ao mesmo tempo em que vem reduzindo proporcionalmente as suas relações comerciais com os Estados Unidos e com a Europa.
O Brasil dos dias atuais vem experimentando uma promissora experiência democrática com o bom funcionamento das instituições e o estabelecimento, se não absoluto, pelo menos satisfatório, do estado democrático de direito. As liberdades de imprensa e de expressão têm contribuído para o fortalecimento de nossa democracia. No campo econômico, a diversificação de nossas atividades agrícolas, industriais e comerciais; o fortalecimento de nosso mercado interno, a descoberta de reservas petrolíferas que nos garantem a auto-suficiência e o desenvolvimento tecnológico em diversas áreas como a dos bio combustíveis, nos colocará em breve entre as cinco ou seis maiores economias do planeta. No campo social, os programas de transferência de renda juntamente com outras medidas governamentais no sentido de diminuir as históricas injustiças sociais, vêm melhorando a qualidade de vida e a capacidade de consumo de milhões de famílias.
Apesar dos avanços políticos, econômicos e sociais que não podem ser omitidos, a sociedade e as autoridades brasileiras têm, histórica e sistematicamente, se omitido nas questões relacionadas á educação dos nossos jovens, seja na formação do cidadão ou na formação profissional. A imigração de mão-de-obra de profissionais especializados dos países desenvolvidos para o Brasil (neste momento de crescimento econômico em que a falta de mão-de-obra qualificada torna-se um obstáculo ao desenvolvimento), tirando dos brasileiros bons empregos e salários, pode comprovar essa tese.
O texto apresentado foi elaborado com base em leituras, discussões e reflexões sobre a constituição do Brasil e daquele que chamamos “povo brasileiro” como coadjuvante em um processo histórico protagonizado pelo capitalismo.
Exceto pelo povo indígena que aqui se encontrava no momento em que Portugal decidiu explorar as suas terras americanas, que não se adaptou ou se curvou ao sistema de trabalho escravo imposto pelos invasores, todos os outros grupos étnicos que formaram o nosso povo, serviram como força de trabalho, não para construir uma nação, mas para enriquecer os países que sediavam os interesses capitalistas ao longo desses cinco séculos.
Nossas elites históricas, regra geral sempre tiveram mais facilidade em cultuar os valores externos e se identificar com os seus primos ricos, do que em fortalecer uma cultura nativa própria e se aproximar dos outros componentes de sociedade brasileira.
As transformações políticas sempre respeitaram o mesmo padrão de arranjos dentro do sistema ou dentro da ordem.
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