domingo, 16 de maio de 2010

A diferença entre a intenção e o resultado

Maximillian Carl Emil Weber ou como é mais conhecido, Max Weber, nasceu na Alemanha em Erfurt, no dia 21 de abril de 1864 e faleceu em Monique, no dia 14 de junho de 1920. Casou-se com Marianne Weber que era socióloga e historiadora do direito. Foi um grande intelectual de sua época, formando-se em direito, estudou também filosofia, teologia, história e economia.
Nascido numa tradicional família protestante declarava-se ateu. Ao lado de Karl Marx e Émile Durkheim é considerado um dos fundadores da sociologia, tendo se notabilizado nesta área, especialmente por seus trabalhos sobre a sociologia da religião, onde se destaca a obra: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Objeto desta resenha.
Além de possuir uma visão particular do mundo social e de ter desenvolvido uma metodologia específica para explicá-la – a metodologia compreensiva - Max Weber estudou e escreveu sobre sociologia econômica, sociologia religiosa, sociologia política, sociologia jurídica e sociologia da arte e da técnica, entre tantos outros temas não ligados especificamente á sociologia.
O objetivo de Max Weber em sua sociologia da religião era o de compreender a influencia da religião sobre as outras atividades humanas e sociais como a ética, a economia, a política, as artes, a cultura, etc; e apreender os conflitos que poderiam surgir das diferenças de valores de cada uma delas. Neste contexto Weber não se interessou pelos dogmas ou pelas filosofias religiosas, bem como pela legitimidade de cada uma delas, seu interesse recaiu sobre a moral religiosa e como esta moral influenciou as outras atividades humanas, especialmente a ética, a economia, a política, a educação e a justiça.
A relação entre as religiões (ou suas condutas morais) com as outras atividades humanas, era um assunto de extrema importância para Weber, tanto que ele a aborda longamente em outras duas de suas importantes obras: Economia e Sociedade e “Zwischenbetrachtung do Tomo Primeiro da Religionssoziologie”.
A precisão terminológica, o rigor metodológico e o não dogmatismo constituem as características básicas de Max Weber e podem ser encontrados em todas as suas obras. Para Weber é impossível fazer uma síntese da sociologia ou simplesmente procurar ou produzir leis gerais que expliquem tudo definitivamente, dado o caráter dinâmico e o emaranhado de fatores, causas e conseqüências existentes nas diversas dimensões e relações sociais, nos diferentes locais e épocas em que se pode estudar um fenômeno ou uma relação entre dois ou mais fenômenos, aparentemente distintos. Para Max Weber somente é possível estabelecer e estudar aspectos absolutamente específicos, em locais determinados e em períodos históricos precisos, fazendo deles leituras que ajudam a entender uma pequena parte de um grande processo ou de um grande sistema. Neste sentido suas principais contribuições teóricas, dentro dos estudos da sociedade, foram estabelecer o sujeito e as ações sociais destes como seu objeto de estudo e de ter criado o conceito de tipo ideal, como um instrumento de pesquisa sociológica.
Outra de suas grandes preocupações era a relação com valores pré-estabelecidos como um fator que poderia comprometer o resultado do trabalho científico, embora considere que a escolha do tema a ser estudado, já carregue por si só, uma escolha valorativa e, portanto, política.
Influenciado por Emmanuel Kant, Weber diz ser impossível, tanto para as ciências sociais quanto para qualquer ciência ou conjunto delas, descrever a realidade como ela efetivamente é, sendo possível apenas descrevê-la (aproximadamente) através de conceitos. Dentro deste raciocínio, o método generalizante despoja a realidade da riqueza de detalhes importantes e o método individualizante, não traduz a integralidade do real, preferindo então optar por uma posição intermediária em seu método compreensivo. Para ele, o método individualizante valoriza o aspecto qualitativo e o generalizante o aspecto quantitativo, ambos indispensáveis em suas análises.
Para Weber, a sociologia existente até então sugeria uma linha histórica evolutiva onde os cientistas não procuravam respostas para determinadas perguntas, mas tão somente, justificar suas próprias hipóteses. Neste sentido, ele se caracteriza por não possuir qualquer doutrina pré-estabelecida e de qualquer síntese á priori. Puro analista, procura conhecer bem os dados históricos e interpretá-los dentro de limites controláveis.
A racionalização para Weber é o resultado da especialização científica e da diferenciação técnica peculiar da civilização ocidental. Ao entender que a ética da responsabilidade deve sobrepor-se á ética das convicções, além de uma sutil crítica á Marx, Weber nos lembra de certa forma Maquiavel. Por essa razão, o seu lado pragmático, realista e metódico, certamente não despertou paixões nem criou uma escola.
Desta forma Max Weber é um crítico de Karl Marx em seu método materialista histórico, nos seus conceitos de superestrutura e estrutura e de solidificação das classes sociais, bem como pela fixação de Marx pelo economicismo causal e por fim, pelo seu dogmatismo. Quanto a Durkheim, Weber considerava inestimável sua contribuição na tentativa de consolidar a sociologia como ciência positiva, porém, criticava-o por possuir uma doutrina pré-concebida ao interpretar a consciência coletiva como um fato constatável, quando para ele (Weber), isso não passava de uma hipótese.
Feitas as considerações e ponderações iniciais para contextualizar o autor, seu pensamento, suas obras e sua metodologia, cabe agora entrar na análise específica dos capítulos IV e V de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”.
No absolutamente incontável número de fatores que poderiam ou tentariam explicar o fenômeno do capitalismo, Max Weber foi buscar numa fundamentação religiosa, mais precisamente no protestantismo ascético norte americano a sua explicação. Esclarece-nos, no entanto, e com muita propriedade, que não pretende dar uma explicação cabal, única ou preponderante para o assunto, sua intenção foi a de colaborar com o entendimento dessa construção social, que definiu os rumos da sociedade ocidental a partir do renascimento, das reformas religiosas e do iluminismo, e que nos dias atuais prevalece em praticamente todo o globo.
Metodologicamente, Max Weber especificou e qualificou precisamente o objeto de sua pesquisa, estabelecendo os seus níveis de importância e influência, e a partir daí aprofundou seus estudos com o rigor e a erudição que lhe eram próprios. A ponte, a ligação, o elo causal entre a ética protestante, como uma conduta moral e o espírito do capitalismo como uma norma de procedimentos era o que lhe interessava. Embora necessitasse de um profundo e amplo conhecimento sobre as religiões ocidentais (judaísmo, cristianismo e islamismo), e ele os tinha, não era o protestantismo o seu objeto de estudo e sim a sua ética, a sua moral religiosa, qual seja, o princípio central da predestinação e da busca, quase obcecada pela sua comprovação. Da mesma forma, Max Weber não pretendeu explicar o capitalismo como um todo, mas unicamente o seu espírito, a idéia de que o investimento da riqueza acumulada gera ainda mais riqueza.
Max Weber identifica nas interpretações dos livros sagrados, feitas pelos protestantes, especialmente pelos puritanos calvinistas, que o exercício do trabalho como uma vocação e a acumulação de riqueza se justificavam unicamente para a glória de Deus, sendo o sucesso profissional e econômico uma pista, um sinal, de que o seu portador era um ser escolhido por Deus e seria premiado com a salvação de sua alma após a morte. Dentro dessa lógica, trabalhar muito e gastar pouco, ou gastar o estritamente necessário para levar uma vida digna (ascese), não poderia ter outro resultado que não o acúmulo de riquezas.
A princípio, somente uma curiosidade científica poderia querer encontrar uma motivação, uma origem religiosa, para um fenômeno puramente econômico e materialista, ou seja, que dois fenômenos sociais tão diferentes e até mesmo contraditórios, poderiam estar intimamente relacionados, de forma que uma ética religiosa, tão dura, tão rígida, poderia se constituir numa causa para o brutal enriquecimento material de um indivíduo ou mesmo de um povo.
Dois pontos são especialmente intrigantes nesta obra: o primeiro é a explicação detalhada e lógica com a qual o autor constrói a ligação entre uma causa espiritual e um efeito material, e a segunda, foi a constatação da não intencionalidade do resultado, abrindo uma nova perspectiva, uma nova ótica (não materialista) para o surgimento do capitalismo como uma coisa maquiavelicamente construída, ou como preferem alguns, uma grande conspiração das elites.
Porém, no último capítulo de seu livro, Max Weber, reflete sobre o descolamento das motivações religiosas iniciais do capitalismo. Para ele, passada essa fase inicial do capitalismo (a sua origem), o acúmulo de riqueza acaba por se tornar um fim em si mesmo, que isolam e aprisionam os homens numa “jaula de ferro” e os afastam de Deus, provocando o que ele chama de “desencantamento do mundo”.
Esses termos cunhados por Max Weber: “jaula de ferro e desencantamento do mundo” o aproximam da idéia da morte de Deus de Friedrich Nietzsche e acabam por dar um tom melancólico para a humanidade, que em sua época, e por que não dizer até os nossos dias, não mais cultivam grandes ilusões.
O rigor metodológico e a precisão terminológica próprios de um dos maiores intelectuais de seu tempo, embora não esgotem o assunto e certamente não era essa a intenção de Max Weber, deixa-nos a impressão de que pouca coisa pode ser acrescentada ou questionada em sua magnífica obra.

Resenha baseada nos capítulos IV e V do livro “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” de Max Weber.

Por José Antonio Martins Prestes

As éticas da política

A recusa do governo em votar o projeto ficha-limpa no senado, para que o sistema entre em vigor nas próximas eleições tem um cunho puramente eleitoral. Na engenharia política do planalto, operada pelo seu líder, Romero Jucá, os "ficha-suja" são muito importantes na composição, não só da base de sustentação do governo na câmara e no senado, mas principalmente, neste momento, como cabos eleitorais em seus respectivos currais.

Infelizmente a ética da convicção e a ética da responsabilidade, tradicionais adversárias nos embates político-eleitorais, estão perdendo (mais uma vez), terreno para a ética da conveniência, ou seja, dos interesses.

Nada de novo por parte do PT do mensalão ou por parte do bom e velho PMDB - especialista que é em fisiologismo político. Do outro lado, o PSDB e o DEM estão na moita, sabem que isso pode desgastar os governistas, mas não batem de frente, no caso de vitória, também contarão com o fundamental apoio dos "ficha-suja" (dos mesmos), no mesmíssimo esquema.

É uma pena, apesar de um remendo "mal enjambrado", o projeto ficha-limpa sinaliza uma intenção da sociedade de moralizar a política-dos-políticos.

Mas, de boas intenções o inferno está cheio...

José Antonio Martins Prestes

sábado, 8 de maio de 2010

Do absurdo e contraditório á lógica inevitável.

De fato a campanha eleitoral de 2010 ainda não ganhou as ruas, e talvez não o faça, se restrinja ou priorize mais uma vês a grande mídia, especialmente a televisão, o que será uma pena. De uma forma geral, os presidenciáveis têm medo do contato direto com o povo, pois neles podem surgir constrangimentos ou situações inesperadas e não controladas, que quando bem aproveitadas pelos adversários, podem provocar grandes estragos em suas respectivas campanhas, por isso é melhor não arriscar.

O povo também não faz muita questão, entre participar de um evento político e ver a novela das oito, é claro que a segunda opção lhe será sempre mais atraente. O desgaste dos políticos junto a opinião pública tem contribuído muito para isso.

Dessa forma a produção de fantásticos vídeos mostrando os candidatos "playmobil"* e suas propostas baseadas em pesquisas de opinião pública, invadirão mais uma vez as telas das nossas televisões, exatamente no horário das novelas, para tentar ganhar a simpatia e o voto dos entediados eleitores. O resultado inevitável disso tudo é o empobrecimento ainda maior do processo político eleitoral e o descrédito da política junto à sociedade. É um círculo vicioso.

Na esteira deste sistema eleitoral ocorrerá também as eleições para Senadores e seus famigerados suplentes, para as Câmaras dos Deputados Federais e Estaduais e para Governadores de Estado e seus Vices. Estas outras eleições assumem um papel secundário e marginal, quase um pano de fundo da grande disputa pela presidência da república, em detrimento de sua importância na vida das pessoas e da inquestionável impotância das eleições legislativas. É preciso lembrar que vivemos um regime "sui generis" de presidencialismo de coalizão. Quem se eleje presidente sem maioria no congresso, tem que compor essa maioria depois das eleições: até agora o sistema mais conhecido e praticado é a corrupção.

O chamado período eleitoral compõem-se de uma “over-dose” de nomes, propostas, programas, críticas, mentiras, xingamentos e dossiês, que não servirão para outra coisa se não para confundir e afastar ainda mais os cidadãos da necessária e urgente discussão política.

Para complicar ainda mais essa situação quase insuportável, virão os partidos, com seus líderes, seus slogans, suas cores, suas bandeiras e logotipos, muito bem feitos; mas sem nenhuma coerência programática ou ideológica, salvo as pouquíssimas exceções que só servem para confirmar a regra. Veremos repetir por exemplo, situações onde partidos coligados no plano nacional sejam inimigos em determinados estados. Essa aberração também ocorrerá entre as eleições majoritárias e proporcionais, onde as legendas novamente se coligarão de formas diferentes e até contraditórias nesses dois planos.

Dessa forma continua difícil para o cidadão comum entender o processo, e se ele não entende certamente não gosta; se ele não gosta não participa. Daí para a rejeição ou para a aversão á política, aos políticos e ao processo eleitoral é um pulinho.

A grande pergunta que se faz é: o que fazer para inverter essa situação? A resposta sugerida aqui é que somente uma reforma na lei eleitoral e no sistema de representação política, ampla e profunda, feita pela sociedade, através de uma assembléia constituída democrática e especificamente para esse fim, cujos representantes eleitos não sejam os políticos atuais (pessoas que ocupam ou que ocuparam cargos políticos eleitorais nos últimos dez anos estariam empedidas de participar), e os que dela participarem se tornariam inelegíveis pelos próximos 10 anos.

Essa é apenas uma sugestão, dentre tantas outras que podem ser apresentadas e que deveriam ser discutidas nas escolas, nas universidades, nas igrejas, nas entidades de classe, nas ong’s, enfim, pela população em geral, para isso, a sociedade civil deve se manifestar, do contrário, o círculo vicioso aqui apresentado continuará a produzir e a reproduzir políticos corruptos e/ou incompetentes, comprometidos consigo mesmos ou com seus grupos de apoio. Esse processo político continuará a sustentar a realidade de sermos um país cada vez mais desenvolvido economicamente e injusto socialmente.

Por absurdo e contraditório que possa parecer, o ponto de partida deste processo só poderá ser dado pela pequena parcela de políticos decentes e bem intencionados, que certamente ainda existe dentro dessa enorme podridão. E deverá ser suportado, por uma nova classe política, que de acordo com a sugestão apresentada, terá dez anos para se preparar para construir uma nação mais justa e equilibrada, capaz de fazer valer as expectativas de vivermos num Brasil efetivamente de todos e para todos.

*Candidatos “playmobil”: candidatos perfeitos.

José Antonio Martins Prestes