sábado, 24 de outubro de 2009

E aí? Quais são as perspectivas dos cientistas sociais?

Constato com tristeza a visão retrograda, limitada e a total falta de ousadia dos colegas das ciências sociais, quanto ás nossas perspectivas profissionais e quanto as nossas perspectivas de interferir e de mudar o mundo em que vivemos. Quando digo isso, refiro-me ao excesso de academicismo e á falta de espírito prático e de contato com a realidade, que imperam em nosso meio no Brasil. Quero lembrar que não conheço a realidade de outros países.

Visão retrograda quando apontamos para o Marxismo como resposta ás mazelas produzidas pelo capitalismo, e limitada, porque não concebo a ideia de não sermos capazes de produzir nada de diferente, nem nada de melhor do que essas duas correntes políticas e filosóficas, quando muito, pendemos para a fusão das duas e a anunciamos como uma grande inovação.

Falta de ousadia pelo simples fato de termos diante de nós um fosso: somos a 8ª economia do planeta com a 75ª classificação no IDH da ONU. Temos um dos países mais corruptos do mundo terráqueo, numa escala decrescente de corrupção, figuramos na 80ª posição. Para ficar mais claro, numa escala de menos corrupção para mais corrupção somos o 80º.

Ao mesmo tempo em que produzimos bolhas de prosperidade e de "segurança" produzimos bolsões de miséria e de violência. Num país que compromete 10% do seu PIB com segurança (pública e privada), e que tem apenas a metade das vagas necessárias para prender todos os criminosos filhos das putas, filhos dos pretos e filhos dos pobres; que gasta mais de dois mil reais por mês com um preso e menos de trezentos reais com um aluno do ciclo básico, precisa de mais coragem dos que se dizem cientistas sociais e restringem a sua atuação a dar aulas nos colégios e nas universidades, funções necessárias e importantes mais não prioritárias, para aqueles que deveriam propor novas formas de relacionamento entre os homens e entre nós e o planeta.

Aprender com os erros e acertos do passado é importante, mas olhar pra frente é fundamental, do contrário, seriamos dotados também de olhos na nuca, pelo menos um. Culpar a janela pela paisagem é uma forma eficientíssima de sermos ineficientes. Remendar, dar um jeito, é uma forma de não consertar as coisas e somos bons nisso, infelizmente.

O que se espera de um cientista certamente não é a sua capacidade de identificar, quantificar e qualificar os problemas e suas causas, é sem dúvida nenhuma, a sua capacidade de produzir respostas viáveis, sustentáveis e exeqüíveis. Do contrário seremos sempre, críticos sociais, nunca, cientistas sociais, e as perspctivas profissionais e de mudança continuarão restritas ao mundo acadêmico..

José Antonio Martins Prestes

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Polícia Bandida

Um negro ferido agoniza depois de ser baleado num assalto na cidade do Rio de Janeiro. Dois policiais militares chegam ao local, liberam inexplicavelmente os suspeitos, e, ao invés de socorrer a vítima, roubam-lhe um par de tênis e uma jaqueta. Uma segunda viatura passa pelo local e ignora a agonia do homem (que morre vários minutos depois, sem socorro ou atendimento).

O comandante da PM do Rio, Coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, não gostou da qualificação de "Bandidos de Farda", dada ao Capitão e ao Cabo que protagonizaram a ocorrência, por um amigo da vítima.

Talvez, chamar de Bandidos de farda esses policiais seja mesmo impróprio, porque pode restringir o adjetivo ao pequeno grupo de policiais militares que participaram da prevaricação, da omissão de socorro e do roubo; seria mais conveniente chamar a Polícia Militar do Rio de Janeiro de Polícia Bandida e começar por prender o seu comandante e demitir o seu estado maior, antes mesmo de se pensar numa nova estrutura para a segurança pública no Brasil.

Na foto: Evandro João da Silva, coordenador social do AfroReggae, assassinado no Rio.

José Antonio Martins Prestes

sábado, 17 de outubro de 2009

É o fim do começo ou é o começo do fim?

Cuba enfrenta dificuldades para manter subsídios e pode cortar distribuição social de comida

Mauricio Vicent Em Havana (Cuba)

Mais de 70% dos cubanos vivem desde que nasceram sob o sistema de racionamento. A famosa caderneta de abastecimento, em vigor desde 1962, garante todo mês a cada um dos 11 milhões de habitantes da ilha 3,5 kg de arroz, 2,5 kg de açúcar, 500 g de feijão, 230 g de óleo, 10 ovos, 460 g de frango, 460 g de macarrão, 230 g de picadinho de soja - ou substituto -, além de 115 g de café e um pão diário. Para as crianças menores de 7 anos, incluí um litro de leite por dia. Não é muito, mas durante quase meio século essa minicesta básica subvencionada - todos esses produtos custam o equivalente a menos de 1 euro - foi símbolo do igualitarismo da revolução.
Cuba liberta homem que pediu comida diante de câmeras de televisão
Juan Carlos González Marco, conhecido como "Pánfilo", foi preso a mando do Governo cubano, após ter sido condenado a dois anos de prisão por protestar e pedir comida diante de câmaras de televisão. Apesar de "Pánfilo" ter sido condenado a dois anos de prisão por "desvinculação laboral" e "periculosidade social pré-delitiva", e sua pena ter sido ratificada na semana passada em um tribunal de apelação de Havana, ele recebeu uma carta na qual comunica sua liberdade e que ficará 21 dias em um hospital psiquiátrico para receber um tratamento contra alcoolismo. "Pánfilo" ficará em liberdade após sua estadia nesse hospital e não terá que voltar à prisão
Mas os tempos mudam... Em meio à crise atual, a caderneta de racionamento se transformou em um fardo pesado demais para o governo de Raúl Castro, que tenta consolidar um modelo de economia socialista "sustentável", baseado na lógica dos números e não em sonhos impossíveis. Cuba importa mais de 80% dos alimentos que consome, e nas circunstâncias atuais a subvenção dos produtos da caderneta representa para o Estado mais de US$ 800 milhões. A conta não fecha. E o realismo raulista divulgou esse fato de todas as maneiras.Desde que assumiu formalmente o poder, em 24 de fevereiro de 2008, Raúl Castro declarou que a caderneta de racionamento, assim como outras "gratuidades e subsídios milionários", são "irracionais e insustentáveis". "Nenhum país pode gastar indefinidamente mais do que ganha", disse em várias oportunidades. O mesmo discurso é repetido há meses na mídia oficial, e em jornais como "Granma" é rara a semana em que não se publicam cartas dos leitores sobre o tema da caderneta. Até o diretor do jornal, Lázaro Barredo, deputado e membro do Comitê Central do Partido Comunista, publicou esta semana um editorial acalorado contra os "vícios do paternalismo", no qual defende o fim do racionamento subsidiado. "A caderneta de abastecimento foi uma necessidade em um determinado momento; com seus atuais atributos se transforma em um empecilho dentro do conjunto de decisões que a nação terá de assumir", afirma Barredo, para quem "a justiça social não é o igualitarismo, é a igualdade de direitos e oportunidades".No início do mês as autoridades começaram a experimentar a primeira medida - redução dos subsídios. Como teste, em quatro ministérios - Trabalho e Seguridade Social, Finanças e Preços, Economia e Planejamento e Comércio Interior - foram fechados os refeitórios operários e em troca se começou a dar a cada trabalhador 15 pesos diários - cerca de 0,70 euro - para que almoce por conta própria. Em Cuba há 25 mil refeitórios operários, onde se alimentam diariamente 3,5 milhões de trabalhadores, o que custa ao Estado US$ 350 milhões, segundo números oficiais. A idéia é estender a medida a todos os centros de trabalho.Dentro dessa lógica de eliminação de subsídios, a caderneta de racionamento tem os dias contados, na opinião da maioria dos especialistas. "A caderneta vai desaparecer, disso não há dúvida. Mas a precariedade atual é tamanha que o governo não pode fazer isso de uma vez, pois deixaria meia ilha derrubada", afirma um economista. As autoridades sabem disso. O salário médio em Cuba é de 415 pesos mensais, cerca de 13 euros. Em Cuba, é verdade, a saúde e a educação são gratuitas - outra coisa é sua qualidade -, o preço da água, do gás e outros serviços são subsidiados e a caderneta garante um mínimo que chega para dez ou 12 dias. "Mas depois você vai à mercearia e lhe cobram por 1 litro de óleo o salário de uma semana, e outro tanto por um frasco de xampu", diz Virginia, formada em biotecnologia. "O que vai fazer um aposentado que ganhe 200 pesos por mês se lhe tirarem a caderneta?", pergunta-se.Pelo que se disse até agora entre linhas, parece clara qual será a estratégia: subvencionar as pessoas que mais precisem e eliminar o racionamento para as demais. Mas economistas independentes como Óscar Espinosa Chepe põem o dedo na ferida: antes é preciso fazer alguns deveres, como eliminar a dupla moeda e conseguir que o salário recupere o valor real. Para gerar riqueza não basta poupar, é preciso produzir; e é bom lembrar que em Cuba de 60% a 70% dos alimentos são produzidos por agricultores privados, que dispõem de 20% das terras.Por que não se cooperativizam certos serviços que o Estado é incapaz de oferecer com qualidade? E por que não se dão maiores margens à iniciativa privada?, perguntam-se Chepe e muitos outros. E, como a caderneta desaparecerá, as reformas serão cada vez mais urgentes.


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


Publicado no Uol notícias 17/10/2009

sábado, 10 de outubro de 2009

Dois pesos e duas medidas.

Direitos humanos de esquerda
O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, em palestra em Belém, quarta-feira passada, em conferência promovida pela OAB, esclareceu que o governo Lula concedeu status de refugiado político ao ex-guerrilheiro italiano Cesare Battisti, com base numa premissa humanitária: a tradição brasileira de acolher quem lhe peça socorro, independentemente do conflito de que seja parte.
Simples assim. O ministro foi aplaudido como um humanista, sem que a alguém na platéia ocorresse uma pergunta igualmente simples: por que a mesma tradição não funcionou em prol dos boxeadores cubanos Guillermo Rigoundeaux e Erislandy Lara?
Eles, como se recorda, desligaram-se da delegação de seu país, na conclusão dos jogos pan-americanos de 2007, e pediram asilo ao governo brasileiro, alegando incompatibilidade com o ambiente político de Cuba.
O pedido foi recusado e ambos foram deportados de volta a seu país, num jato fretado pelo governo cubano.
Lá, como temiam, foram presos. As autoridades brasileiras alegaram que estavam sem documentos, o que, segundo a Polícia Federal, já seria motivo suficiente para a deportação.
Não se sabe se Battisti possui os seus documentos em ordem. Em geral, pessoas nessas condições não possuem.
A diferença entre os boxeadores e Battisti é que este foi condenado em instância final por crimes de homicídio em sua terra e por um tribunal de direitos humanos da União Européia.
Contra os boxeadores, nenhuma acusação pesava, a não ser o desejo de viver em uma democracia, regime desconhecido em Cuba há meio século.
Tem-se aí claramente um fenômeno de ideologização dos direitos humanos. Tratava-se, no caso dos cubanos, de atender a um governante ideologicamente afim ao governo brasileiro.
No caso de Battisti, que integrou organização paramilitar de esquerda na Itália dos anos 70, dava-se o contrário: estava em pauta o pleito de um governo democrático, reclamando, com base em tratado de extradição firmado com o Brasil, alguém condenado por três crimes de morte, aos quais não se deu o rótulo de “políticos”.
Em defesa de Battisti, o governo foi às últimas conseqüências. Enfrentou a reação do governo italiano, pondo em dúvida a justeza das sentenças condenatórias.
O ministro da Justiça, Tarso Genro, não hesitou em considerar que o Judiciário italiano não foi justo, gerando reações fortes naquele país. Somos humanitários e ponto final.
No caso dos cubanos, alegou-se apenas que eles não tinham documentos. O passaporte estava retido junto à delegação. O humanismo perdeu para o rigor burocrático da polícia e o governo, claro, não podia fazer nada.
O governou agiu ideologicamente, com pesos e medidas diferentes para cada caso, o que é característica dos governos. Pelo menos de alguns.
Também os governos militares brasileiros agiam ideologicamente, ao conceder asilo a ex-ditadores e a prender fugitivos de ditaduras do Cone Sul, nos anos 70 e 80.
Mas direitos humanos não têm ideologia. Não são de esquerda ou de direita. Não há direitos humanos socialistas ou neoliberais.
Onde quer que a integridade física, moral, psicológica ou cultural de uma pessoa ou de uma comunidade seja violada, ali se configura uma transgressão aos direitos humanos e deve ser combatida.
Cabe à imprensa um papel nesse processo: o de postar-se acima do jogo ideológico e denunciar. Nem sempre o faz, mas é ainda quem faz.
Por exemplo: sabe-se com freqüência – e repudia-se – as agressões aos integrantes do MST, mas sabe-se pouco (e minimiza-se) o que ocorre com os que habitam as propriedades por eles invadidas.
E há aí também inúmeros casos de violência, que ferem direitos humanos, quando não o bom senso (caso dos laranjais da Fazenda Cutrale, destruídos bestialmente há dias no interior de São Paulo).
Por essa razão, convém insistir na máxima de que direitos humanos não têm – não podem ter – ideologia, a não ser a expressa em sua própria essência: a defesa da integridade e dignidade do ser humano.
Fugir dessa premissa, relativizando-a, é fugir da própria missão. Como o fez agora o ministro dos (vá lá) Direitos Humanos.

Ruy Fabiano é jornalista, e publicou esta matéria no blog no Noblat- 10/10/09

domingo, 4 de outubro de 2009

Utopia. Por que não?

“Foi estabelecido cientificamente que a mamangava não pode voar. Sua cabeça é grande demais e suas asas pequenas demais para sustentar o corpo. Segundo as leis da aerodinâmica, ela simplesmente não poderia voar. Mas ninguém disse isso à mamangava. E assim ela voa.”

Autor desconhecido