
O anjo torto, esquerda (e direita) no Brasil. Editora Brasiliense, 1995.
Resenha do livro de Emir Sader, feita por José Antonio Martins PRESTES
O autor inicia sua obra argumentando que, apesar dos inúmeros e substanciais avanços tecnológicos observados nos dias atuais, as desigualdades sócio/econômicas entre os países ricos (do hemisfério norte) e os países pobres, intitulados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento (do hemisfério sul), acabaram por se acentuar drasticamente, e que a internacionalização das economias via globalização, fez com que os termos, direita e esquerda, perdessem o sentido que adquiriram nos últimos 300 anos, provocando um esvaziamento nos discursos políticos que se sustentavam sobre essa dualidade.
Os claros conflitos e contradições políticas, sociais e econômicas, observados á partir da revolução francesa e que se espalharam pelo mundo ocidental até o final do século XX, perderam de certa forma sua relevância e seu sentido depois da queda do muro de Berlim, do esfacelamento da URSS, da formação do Mercado Comum Europeu e da inserção da China na economia de mercado; causando uma espécie de anestesia e nebulosidade entre os que defendiam o socialismo democrático ou o comunismo; enfraquecendo-os e abrindo espaço para a evolução de uma nova ordem política e econômica, predominantemente neoliberal, defendida pelos Estados Unidos da América e pela Inglaterra do pós-guerra.
No Brasil, nasce nos anos de 30 (do século passado) e predomina até o final da década de 60 (com Luiz Carlos Prestes e com o Partido Comunista Brasileiro), uma proposta de esquerda capenga e vacilante, baseada no modelo Russo de 1917 (primeira fase). Posteriormente, durante a década de 70 tivemos a segunda fase da esquerda brasileira, caracterizada pela resistência armada ao regime militar ditatorial instalado em março de 1964. Finalmente, em sua terceira fase, a esquerda brasileira se consolida nos anos 80, através da resistência “pacífica” e institucional a já agonizante e desgastada ditadura militar, que caminhava lenta e tristemente para o seu final.
Sader desconsidera em sua obra, o fato de que nos anos 30, 40 e 50, a esquerda brasileira, leia-se Luiz Carlos Prestes e PCB, serviu mais aos interesses do Líder Populista Getúlio Vargas, que a seus próprios interesses e objetivos, na medida em que se “deixava” manipular pelo mesmo; juntamente com outras forças políticas da época como o integralismo; em função de um grande projeto progressista/nacionalista em implantação por Getúlio, que contrariava frontalmente os interesses do liberalismo americano no Brasil e na América Latina.
No início dos anos 60, buscando novas formas de atuação, surge do próprio PCB (e criticando-o), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), de orientação chinesa revolucionária. Nesta mesma linha de conduta crítica ao PCB, nasce em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a Política Operária, denominada Polop. No campo do pensamento Cristão, surge baseada na encíclica Pacen in Terris, do Papa João XXIII a Ação Popular, movimento de esquerda que deu origem posteriormente a teologia da libertação. Também neste contexto nasce as Ligas Camponesas, movimento baseado na luta pela reforma agrária e acesso á terra. Portanto, o início dos anos 60 marca o fim da hegemonia do PCB na esquerda brasileira e inalgura novas formas de luta e de mobilização popular em prol da implantação de um regime socialista revolucionário e democrático, processo este que culminou no golpe de 31 de março de 1964, uma ditadura militar violenta e repressiva.
A luta armada como forma de resistência ao regime instalado e suas mazelas é colocada pelo autor como única fronteira possível de atuação da esquerda no final dos anos 60 e início dos anos 70. Fato este que deu origem a uma série de assaltos e seqüestros urbanos, promovidos por diversos grupos de esquerda e pelas tentativas de organização de luta armada no campo, como as experiências da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária do Capitão Carlos Lamarca), no Vale do Ribeira e a tentativa do PCdoB em implantar no rio Araguaia, um núcleo de guerrilha rural. Todas essas tentativas foram violentamente reprimidas pela ditadura, com suas forças oficiais e para-militares, resultando na prisão, tortura, morte ou exílio daqueles que delas faziam parte.
Após o aniquilamento dos grupos que tentaram combater a ditadura pela via da luta armada, o regime militar permitiu que se estruturasse dentro do MDB (partido que juntamente com a ARENA, prestava-se ao trabalho de dar legitimidade política á ditadura), o nascimento de uma oposição vigiada e controlada. O processo de redemocratização nasce então nas mãos das FFAA (forças armadas), que no final da década de 70 promovem uma anistia política.
O fracasso dos programas sociais e econômicos do regime militar, associado a implantação de indústrias multinacionais na região do ABCD paulista, propiciou o surgimento de um movimento sindical muito mais crítico e independente do que aquele sindicalismo estatal predominante no período de Getúlio Vargas. É justamente no seio deste movimento sindical que nasce a terceira geração da esquerda brasileira, associada a amplos e importantes setores da sociedade civil como os membros da igreja católica, ligados á teologia da libertação e aos intelectuais da USP e da Unicamp. Desse movimento sindical e neste contexto nasce o Partido dos Trabalhadores (PT), que assumiu a cara da nova esquerda brasileira, defendendo um discurso socialista e democrático e em oposição ao neoliberalismo implantado e defendido pelas forças de direita que ocupavam o poder desde março de 64.
A ascensão do PT de Lula como o principal representante da esquerda brasileira, colocou todos os demais partidos de esquerda num papel de meros coadjuvantes no processo político e a polarização com o PSDB (um partido que depois da eleição de Fernando Henrique Cardoso e da associação com o PFL, assume a bandeira do neoliberalismo), definiu o campo de embate político ideológico do Brasil contemporâneo.
De uma forma clara, simples, muito objetiva e sem emitir juízo de valor, Emir Sader traça uma perfeita trajetória cronológica da esquerda brasileira, que pode ser lida e entendida por todos aqueles que pretendem conhecer a nossa história política recente (pós república velha) e a entender a formação do atual cenário político ideológico brasileiro.
O autor inicia sua obra argumentando que, apesar dos inúmeros e substanciais avanços tecnológicos observados nos dias atuais, as desigualdades sócio/econômicas entre os países ricos (do hemisfério norte) e os países pobres, intitulados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento (do hemisfério sul), acabaram por se acentuar drasticamente, e que a internacionalização das economias via globalização, fez com que os termos, direita e esquerda, perdessem o sentido que adquiriram nos últimos 300 anos, provocando um esvaziamento nos discursos políticos que se sustentavam sobre essa dualidade.
Os claros conflitos e contradições políticas, sociais e econômicas, observados á partir da revolução francesa e que se espalharam pelo mundo ocidental até o final do século XX, perderam de certa forma sua relevância e seu sentido depois da queda do muro de Berlim, do esfacelamento da URSS, da formação do Mercado Comum Europeu e da inserção da China na economia de mercado; causando uma espécie de anestesia e nebulosidade entre os que defendiam o socialismo democrático ou o comunismo; enfraquecendo-os e abrindo espaço para a evolução de uma nova ordem política e econômica, predominantemente neoliberal, defendida pelos Estados Unidos da América e pela Inglaterra do pós-guerra.
No Brasil, nasce nos anos de 30 (do século passado) e predomina até o final da década de 60 (com Luiz Carlos Prestes e com o Partido Comunista Brasileiro), uma proposta de esquerda capenga e vacilante, baseada no modelo Russo de 1917 (primeira fase). Posteriormente, durante a década de 70 tivemos a segunda fase da esquerda brasileira, caracterizada pela resistência armada ao regime militar ditatorial instalado em março de 1964. Finalmente, em sua terceira fase, a esquerda brasileira se consolida nos anos 80, através da resistência “pacífica” e institucional a já agonizante e desgastada ditadura militar, que caminhava lenta e tristemente para o seu final.
Sader desconsidera em sua obra, o fato de que nos anos 30, 40 e 50, a esquerda brasileira, leia-se Luiz Carlos Prestes e PCB, serviu mais aos interesses do Líder Populista Getúlio Vargas, que a seus próprios interesses e objetivos, na medida em que se “deixava” manipular pelo mesmo; juntamente com outras forças políticas da época como o integralismo; em função de um grande projeto progressista/nacionalista em implantação por Getúlio, que contrariava frontalmente os interesses do liberalismo americano no Brasil e na América Latina.
No início dos anos 60, buscando novas formas de atuação, surge do próprio PCB (e criticando-o), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), de orientação chinesa revolucionária. Nesta mesma linha de conduta crítica ao PCB, nasce em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a Política Operária, denominada Polop. No campo do pensamento Cristão, surge baseada na encíclica Pacen in Terris, do Papa João XXIII a Ação Popular, movimento de esquerda que deu origem posteriormente a teologia da libertação. Também neste contexto nasce as Ligas Camponesas, movimento baseado na luta pela reforma agrária e acesso á terra. Portanto, o início dos anos 60 marca o fim da hegemonia do PCB na esquerda brasileira e inalgura novas formas de luta e de mobilização popular em prol da implantação de um regime socialista revolucionário e democrático, processo este que culminou no golpe de 31 de março de 1964, uma ditadura militar violenta e repressiva.
A luta armada como forma de resistência ao regime instalado e suas mazelas é colocada pelo autor como única fronteira possível de atuação da esquerda no final dos anos 60 e início dos anos 70. Fato este que deu origem a uma série de assaltos e seqüestros urbanos, promovidos por diversos grupos de esquerda e pelas tentativas de organização de luta armada no campo, como as experiências da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária do Capitão Carlos Lamarca), no Vale do Ribeira e a tentativa do PCdoB em implantar no rio Araguaia, um núcleo de guerrilha rural. Todas essas tentativas foram violentamente reprimidas pela ditadura, com suas forças oficiais e para-militares, resultando na prisão, tortura, morte ou exílio daqueles que delas faziam parte.
Após o aniquilamento dos grupos que tentaram combater a ditadura pela via da luta armada, o regime militar permitiu que se estruturasse dentro do MDB (partido que juntamente com a ARENA, prestava-se ao trabalho de dar legitimidade política á ditadura), o nascimento de uma oposição vigiada e controlada. O processo de redemocratização nasce então nas mãos das FFAA (forças armadas), que no final da década de 70 promovem uma anistia política.
O fracasso dos programas sociais e econômicos do regime militar, associado a implantação de indústrias multinacionais na região do ABCD paulista, propiciou o surgimento de um movimento sindical muito mais crítico e independente do que aquele sindicalismo estatal predominante no período de Getúlio Vargas. É justamente no seio deste movimento sindical que nasce a terceira geração da esquerda brasileira, associada a amplos e importantes setores da sociedade civil como os membros da igreja católica, ligados á teologia da libertação e aos intelectuais da USP e da Unicamp. Desse movimento sindical e neste contexto nasce o Partido dos Trabalhadores (PT), que assumiu a cara da nova esquerda brasileira, defendendo um discurso socialista e democrático e em oposição ao neoliberalismo implantado e defendido pelas forças de direita que ocupavam o poder desde março de 64.
A ascensão do PT de Lula como o principal representante da esquerda brasileira, colocou todos os demais partidos de esquerda num papel de meros coadjuvantes no processo político e a polarização com o PSDB (um partido que depois da eleição de Fernando Henrique Cardoso e da associação com o PFL, assume a bandeira do neoliberalismo), definiu o campo de embate político ideológico do Brasil contemporâneo.
De uma forma clara, simples, muito objetiva e sem emitir juízo de valor, Emir Sader traça uma perfeita trajetória cronológica da esquerda brasileira, que pode ser lida e entendida por todos aqueles que pretendem conhecer a nossa história política recente (pós república velha) e a entender a formação do atual cenário político ideológico brasileiro.
Emir Sader nasceu em São Paulo, no ano de 1943. Formou-se em Filosofia na Universidade de São Paulo. Fez Mestrado em Filosofia Política e Doutorado em Ciência Política, ambos na Universidade de São Paulo. Na mesma universidade, trabalhou como professor, primeiro de filosofia, depois de ciência política. Foi, ainda, pesquisador do Centro de Estudos Sócio Econômicos da Universidade do Chile, professor de Política na UNICAMP e coordenador do Curso de Especialização em Políticas Sociais na Faculdade de Serviço Social da UERJ. Atualmente dirige o Laboratório de Políticas Públicas na UERJ, onde é professor de sociologia. É autor de pelo menos 32 outras obras, entre elas: Século XX - Uma biografia não-autorizada. Ed. Fund. Perseu Abramo, 2000. Estado e Política em Marx (Ed. Cortez);A transição no Brasil: da ditadura à democracia? (Ed. Atual).

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